‘Amor’ é um vocábulo pequeno, mas que abarca em si uma enorme complexidade. Sentimento difícil de definir, já que pode ser tão múltiplo e diverso, mas ao mesmo tempo tão unificador. Podemos pensar em muitas formas de amor: romântico, familiar, fraternal.
No entanto, há também um outro amor, que por vezes negligenciamos, mas que na verdade é, em grande medida, base e fundação para todos os outros amores. Falamos, pois, do amor próprio.
Neste artigo, vamos explorar o significado do amor-próprio e apresentar algumas dicas práticas para o poder cultivar.
O amor-próprio, tal como a palavra indica, diz respeito ao amor que uma pessoa sente por si mesma. É a capacidade de nutrir sentimentos positivos por si mesmo/a.
Ao pensar no amor-próprio de forma absoluta, pode parecer-nos que este levaria a uma certa forma de presunção ou narcisismo. No entanto, é o oposto: o amor-próprio é equilibrado e, tal como todos os amores, ao contrário do que se possa pensar, não é incondicional. Pense por exemplo em alguém que ama: esse sentimento ultrapassa os defeitos que a pessoa possa ter, no entanto se ela tiver constantemente comportamentos errados consigo, se lhe falhar, se o/a magoar, esse amor vai esmorecer.
O mesmo se passa com o amor próprio: ele não depende apenas de emoções e pensamentos, passa também por ações e comportamentos. Aquilo que fazemos e o quanto os nossos comportamentos estão de acordo com os nossos princípios e valores, é fundamental para o nosso amor-próprio.
O amor-próprio é também uma base fundamental para todos os outros amores. Isto porque será difícil construir uma relação afetiva sólida e consistente, se não formos capazes de cuidar de nós e de nos sabermos capazes de amar e receber amor. Consequentemente, a falta de amor-próprio pode aumentar o risco de nos deixarmos envolver em relações pouco saudáveis, ou até mesmo abusivas.
A capacidade de amarmo-nos a nós mesmos/as torna a nossa vida mais equilibrada, uma vez que acreditamos nas nossas capacidades e no nosso potencial. A presença do amor-próprio permite uma maior estabilidade, uma vez que perseguimos objetivos que são relevantes para nós e não dependemos tanto da validação externa para sabermos que temos valor. Tornamo-nos menos instáveis e menos voláteis, bem como mais autónomos. No fundo, melhoramos a nossa autoestima.
Cultivar o amor-próprio passa, necessariamente, pelo autocuidado. Um terá dificuldade em existir sem o outro. Quando amamos alguém, cuidamos dessa pessoa, certo? Da mesma forma, para nos amarmos a nós próprios temos de cuidar de nós.
“O termo ‘autocuidado’ é frequentemente mal interpretado. Muitas pessoas podem pensar: ‘quem tem tempo para isso?’ ou ‘mais um discurso autocentrado?'”
No entanto, importa clarificar que autocuidado não é egoísmo nem diz respeito a um foco excessivo e exclusivo no próprio. É, na verdade, uma capacidade de identificar as necessidades básicas a diferentes níveis e de lhes conseguir dar uma resposta adequada.
Existem, por isso, diferentes formas de autocuidado, que refletem diferentes necessidades:

Embora consigamos facilmente compreender porque é que o amor-próprio é importante, a verdade é que muitas vezes apercebemo-nos que nem sempre é fácil cultiva-lo.
Existem alguns obstáculos ou dificuldades que podem ameaçar o amor-próprio, nomeadamente:
O passado molda muito do que somos hoje. Para cultivar o amor-próprio, precisamos de entender a nossa história sem fazer juízos de valor. Isto pode envolver aceitar erros, perdoar e seguir em frente, focando nos nossos objetivos para o futuro.
Tudo isto parece mais fácil de dizer do que fazer, e, por ser algo tão complexo, pode ser necessária a psicoterapia para ajudar neste processo.
São as nossas ações e comportamentos que fazem com que nos sintamos bem connosco próprios, uma vez que é fundamental existir coerência entre aquilo que fazemos e aquilo em que acreditamos para o amor poder fluir.
Procure ter sempre objetivos, mesmo que estes sejam pequenos, e torná-los práticos, realistas e tangíveis.
É provável que a sua tendência possa ser a de se focar nos aspetos negativos, nas falhas ou coisas que precisa de mudar. Não há nada de errado em fazê-lo, mas procure também identificar as coisas positivas, pensando na forma como as pode desenvolver e como as pode usar a seu favor.
Reflita nalgumas questões, como: “o que é que eu faço bem?”, “que habilidades ou competências tenho?”, “quais são as minhas principais qualidades?”, “em que é que me destaco pela positiva?”, “que feedback positivo costumo receber dos outros?”. Se tiver dificuldade em responder a estas perguntas, procure perguntar a um amigo ou alguém próximo de si, que o/a conheça bem, ou até a várias pessoas, para ter uma perspetiva mais diversificada.
Evite gastar energia com coisas que não lhe trazem prazer. Concentre-se em atividades que você pode concretizar, melhorar e que são mais alinhadas com seus objetivos.
Ninguém é autossuficiente, isto é, precisamos de pessoas e não nos bastamos a nós mesmos. Por mais importante que seja gostarmos de nós e da nossa companhia, também é importante ter relações positivas e cuidar delas.
Afaste-se das pessoas que não lhe fazem bem e procure cultivar e nutrir as relações que são positivas na sua vida, investindo e trabalhando para a sua melhoria e continuidade.
É importante ser consciente da forma como fala consigo mesmo/a. Pense na sua mente como um jardim: não permita que este seja pisado ou poluído, procure cuidar dos seus pensamentos, regar os padrões cognitivos realistas e ajustados e gerir, questionar e reestruturar o seu modo de pensar.
Para poder fazer isto, tem primeiramente de estar atento/a e autoconsciente. Vai ter um desafio no trabalho e já está a pensar que vai correr mal? Questione: tenho a certeza? Consigo prever o futuro? Preparei-me para este desafio, tenho os recursos necessários para lidar com isso? Qual é o pior que pode acontecer? Como lidaria com esse cenário?
Estarmos atentos e cientes dos aspetos positivos da nossa vida, de uma forma equilibrada e realista, ajuda a treinar esse músculo na nossa mente e a manter uma perspetiva mais abrangente das coisas, o que contribui para o nosso amor-próprio. Procure refletir diariamente nas coisas pelas quais se sente grato/a. O que correu bem no dia de hoje? O que o/a fez sentir bem? O que tem a agradecer? Que coisas é capaz de fazer e sentir?

Percebemos que o autocuidado é essencial para o amor-próprio. E cuidarmos de nós significa, também, adotar hábitos de vida saudáveis: prática de exercício físico, alimentação equilibrada, descanso e hábitos de sono equilibrados, relações cuidadas e positivas, hobbies e tempo livre com atividades gratificantes, etc.
Promover o amor-próprio passa também por sermos capazes de respeitar as nossas necessidades, o que pode implicar recusar ou dizer “não” a determinadas solicitações. Supere o desconforto de dizer “não”, percebendo que muitas vezes dizer “não” a outra pessoa é dizer “sim” a si mesmo/a.
Gostarmos de nós e termos amor-próprio não significa, necessariamente, satisfazermos todos os nossos desejos. Muitas vezes os nossos desejos são impulsivos, temporários ou até irrealistas. Amor-próprio é mais do que isso, é respeitarmo-nos e conhecermo-nos o suficiente para sabermos o que é melhor para nós. Procure controlar a impulsividade e guiar as ações e decisões pelas suas necessidades e objetivos: o que é que quero? O que é importante para mim? Esta decisão está alinhada com os meus valores e princípios?
O seu amor-próprio vai beneficiar de reduzir o hábito de se comparar, e passar a compreender que somos todos diferentes, que a vida dos outros não é a sua, os objetivos não são os mesmos, e está tudo bem. Foque-se nas suas prioridades, reconhecendo o que é de facto importante para si e quais são os seus limites. Compare-se apenas consigo próprio e com aquilo que já atingiu e que quer atingir.
A sede por validação externa pode minar o amor-próprio, a vontade de agradar os outros acima de todas as coisas. Esta pode ser uma aprendizagem difícil, mas que vale a pena. Procure aceitar que vai haver pessoas que gostarão de si, e outras não. Assim como há pessoas que gostam de chocolate, e outras não. E isso nada tem a ver com o chocolate, mas sim com as preferências de cada um.
Em suma, não precisa que os outros gostem de si para gostar de si mesmo/a – mesmo que uns dias goste mais e outros menos.
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