Reprovar de ano é um momento complexo na vida de uma criança e/ou adolescente. Para os pais ter esta notícia também não é nada fácil. Para alguns pais, surge a preocupação com o futuro, para outros, a frustração, a culpa ou até a sensação de falhanço e no meio de tantas emoções, é natural tentar procurar respostas rápidas. Deve ficar de castigo? Deve estudar durante todo o verão? Deve perder férias, telemóvel ou saídas com amigos? Será que foi falta de esforço? Apesar de compreensíveis, estas reações nem sempre ajudam a criança a crescer ou a aprender com a situação.
Nesta situação, mais importante do que procurar um culpado é compreender o que aconteceu e como transformar esta experiência numa oportunidade de desenvolvimento e aprendizagem.
É uma notícia que pode despertar emoções intensas. Alguns pais sentem desilusão. Outros sentem medo do futuro académico da criança. Há quem se culpe e se questione constantemente: “onde é que eu falhei?”. Outros ainda sentem vergonha perante familiares ou amigos, receando julgamentos ou comparações. É importante reconhecer que estas emoções são legítimas, afinal, todos os pais desejam o melhor para os seus filhos! No entanto, é igualmente importante lembrar que a criança também está a viver este momento e mesmo que não o demonstre, é provável que esteja a sentir tristeza, insegurança, medo ou preocupação. Por vezes, os adultos ficam tão focados na sua própria reação que acabam por esquecer aquilo que a criança está a experienciar.
Antes de tomar decisões, aplicar castigos ou iniciar longas conversas, vale a pena parar e respirar. As primeiras horas após receber esta notícia raramente são o melhor momento para agir. São, isso sim, um momento para acolher emoções e evitar respostas impulsivas que mais tarde podem gerar arrependimento.
As palavras dos pais têm um peso enorme, especialmente em momentos de vulnerabilidade. Quando uma criança ou adolescente percebe que não passou de ano, já está frequentemente a lidar com sentimentos difíceis. Acrescentar críticas, humilhações ou comparações pode aumentar significativamente esse sofrimento.
Frases como:
Estas frases podem parecer uma tentativa de transmitir a gravidade da situação e tentar que a criança perceba, mas acabam muitas vezes por provocar vergonha, culpa e diminuição da autoestima. Quando uma criança sente que o seu valor depende apenas das notas, corre o risco de começar a acreditar que vale menos quando falha. Em vez disso, pode ser mais útil transmitir “Vamos perceber juntos o que aconteceu, estou aqui para te ajudar”. Validar não significa desvalorizar a situação, mas sim criar um espaço seguro para que a criança consiga refletir sem sentir que está a ser atacada.
Muitas vezes olhamos para a retenção apenas do ponto de vista académico. No entanto, para a criança, a experiência pode ter um impacto emocional significativo. Algumas crianças interpretam a retenção como uma prova de incapacidade e podem surgir pensamentos como:
Quando estas crenças se instalam, o problema deixa de ser apenas escolar. A autoestima influencia diretamente a motivação, a persistência e a capacidade de enfrentar desafios. Uma criança que acredita que não é capaz tende a desistir mais facilmente e a evitar situações em que possa voltar a falhar. Por isso, é fundamental ajudar a criança a separar aquilo que aconteceu da sua identidade. Não passar de ano significa que existiram dificuldades num determinado contexto e momento da vida, não significa que a criança seja menos inteligente, menos competente ou menos valiosa e daí ser de extrema importância transmitir à criança que as notas não definem o seu valor.
Uma retenção raramente acontece por uma única razão. Por detrás das dificuldades escolares podem existir diversos fatores:
Por vezes, aquilo que os adultos interpretam como preguiça é, na realidade, uma criança que se sente incapaz, perdida ou desmotivada e também é importante lembrar que nem todas as crianças aprendem da mesma forma ou ao mesmo ritmo. Compreender as causas das dificuldades é essencial para encontrar soluções eficazes.
Esta é uma das perguntas mais frequentes dos país e a resposta é simples: na maioria dos casos, não.
Embora os castigos possam produzir obediência momentânea, raramente promovem motivação genuína para aprender. Quando uma criança já se sente frustrada, envergonhada ou triste por não ter conseguido atingir os objetivos escolares, acrescentar punições severas pode reforçar sentimentos de incompetência. O medo pode levar a estudar por obrigação durante algum tempo. No entanto, dificilmente promove curiosidade, autonomia ou prazer pela aprendizagem. Vários estudos demonstram que as crianças aprendem melhor quando se sentem apoiadas, compreendidas e encorajadas, e não quando vivem permanentemente sob ameaça de punição.
Mas então não deve haver consequências?
É importante distinguir castigo de consequência. Um castigo procura fazer a criança sofrer pelo erro cometido. Uma consequência educativa procura ajudá-la a aprender com esse erro. Por exemplo:
A diferença está no objetivo. Enquanto o castigo se centra na punição, a consequência educativa procura promover crescimento e responsabilidade.
É natural que muitos pais sintam vontade de dar castigos e retirar privilégios quando existe uma retenção. No entanto, transformar as férias numa punição raramente produz os resultados desejados. As férias têm uma função importante no desenvolvimento infantil. Elas Permitem:
Uma criança emocionalmente esgotada dificilmente estará em condições ideais para aprender. Isto não significa ignorar completamente as dificuldades escolares. Significa apenas encontrar um equilíbrio saudável entre responsabilidade e descanso.
E como podemos encontrar esse equilíbrio?
A retenção não deve ser ignorada, mas também não precisa de ocupar todo o verão. Uma abordagem equilibrada pode incluir:
Mais importante do que a quantidade de trabalho é a consistência. Muitas vezes, 20 ou 30 minutos por dia são mais eficazes do que várias horas seguidas que acabam por gerar resistência e desgaste. A criança precisa de sentir que continua a ter espaço para brincar, descansar e viver experiências positivas.
Uma situação que preocupa muitos pais é quando a criança parece indiferente à retenção. Por vezes os pais dizem “ele não quer saber”, “parece que não lhe faz diferença”, contudo a verdade é que nem sempre aquilo que vemos corresponde ao que a criança sente.
Por vezes, a aparente indiferença funciona como um mecanismo de proteção emocional. É mais fácil fingir que não importa do que lidar com sentimentos de vergonha, tristeza ou fracasso. Por isso, antes de assumirmos que existe falta de preocupação, vale a pena tentar compreender o que está por trás desse comportamento, criando espaço para conversar sem julgamento. Isto pode revelar emoções que inicialmente não eram visíveis.
Por difícil que seja, uma retenção a verdade é que a mesma pode transformar-se numa oportunidade de crescimento. Pode ser um momento para refletir sobre:
O foco não precisa de ser “quem é o culpado desta situação”, pode ser “o que podemos fazer de forma diferente daqui para a frente?” e esta mudança de perspetiva é muitas vezes aquilo que permite à criança recuperar a confiança e avançar.
Não passar de ano pode ser uma experiência difícil para uma criança e para a família. No entanto, uma retenção não define inteligência, capacidade ou valor pessoal. Mais importante do que procurar culpados ou aplicar castigos severos é compreender o que aconteceu, apoiar a criança e ajudá-la a desenvolver ferramentas para enfrentar os desafios futuros.
As notas contam uma parte da história, mas nunca contam a história toda. A forma como os adultos reagem a este momento pode ter um impacto muito maior do que a retenção em si. Porque aquilo que a criança irá recordar no futuro não será apenas o facto de ter repetido um ano escolar, será também a forma como se sentiu acompanhada, compreendida e apoiada durante esse processo.
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