“O meu filho não me ouve”, frase que muitos pais dizem, quase em tom de desabafo.
Dizem-lhe para desligar a televisão e continua a olhar para o ecrã. Pedem-lhe para dizer “por favor” e “obrigado”, mas as palavras parecem nunca surgir. Explicam-lhe que não deve gritar, mas basta um momento de maior tensão para que a criança volte a levantar a voz.
Perante estas situações, é natural surgir a sensação de que tudo o que dizemos entra por um ouvido e sai pelo outro, mas e se a questão não fosse apenas aquilo que a criança ouve? E se fosse, sobretudo, aquilo que vê?
As crianças aprendem desde o primeiro dia de vida. Antes mesmo de compreenderem o significado das palavras, já estão a observar atentamente o mundo à sua volta. Observam a forma como os pais falam um com o outro, como resolvem conflitos, como reagem quando algo corre mal, como tratam outras pessoas e até como falam consigo próprios.
Grande parte da educação acontece precisamente aí: nos pequenos gestos do dia a dia que, muitas vezes, passam despercebidos aos adultos e é por isso que se costuma dizer que as crianças aprendem mais com aquilo que fazemos do que com aquilo que dizemos.
Durante a infância, os pais são a principal referência da criança. São o seu porto seguro, as pessoas em quem mais confia e aquelas que lhe mostram, todos os dias, como funciona o mundo. É através desta relação que a criança vai aprendendo muito mais do que regras ou conhecimentos académicos. Aprende como se demonstram afetos, como se resolvem problemas, como se lida com a frustração, como se comunica e até como se cuida de si própria. Estas aprendizagens acontecem, na maioria das vezes, de forma silenciosa.
A criança não precisa que alguém lhe explique como deve reagir perante uma discussão. Ela observa. Não precisa que lhe façam uma aula sobre empatia. Ela vê a forma como os pais tratam um empregado de mesa, um vizinho ou um familiar. Não precisa que lhe expliquem como lidar com o erro. Observa aquilo que acontece quando um adulto falha. É precisamente por isso que o exemplo tem um impacto tão profundo.
O cérebro infantil está constantemente a recolher informação sobre aquilo que é considerado “normal”. E aquilo que é vivido repetidamente dentro de casa tende a tornar-se a referência da criança para compreender as relações, as emoções e os comportamentos. As crianças aprendem a observar muito antes de aprenderem a compreender. Existe um fenómeno muito estudado na Psicologia chamado aprendizagem por modelagem e termos simples, significa que uma parte significativa das aprendizagens acontece através da observação dos outros. Quando uma criança vê repetidamente determinado comportamento, vai integrando essa informação sobre a forma como as pessoas costumam agir. É por isso que, muitas vezes, vemos crianças pequenas brincar “às famílias”, fingir que cozinham, conduzem ou trabalham. Não lhes ensinámos diretamente essas ações, elas observaram e fizeram delas parte da sua brincadeira. O mesmo acontece com comportamentos muito mais complexos. Uma criança aprende a forma como se pede desculpa porque viu alguém fazê-lo. Aprende a agradecer porque isso acontece frequentemente em casa. Aprende a respeitar porque se sente respeitada. Aprende a lidar com conflitos porque observa a forma como os adultos resolvem os seus.
“Faz o que eu digo, não faças o que eu faço” provavelmente todos nós já ouvimos esta expressão alguma vez na nossa vida. No entanto, quando falamos de educação, ela raramente resulta. As crianças precisam de coerência e se e um adulto diz que é importante falar com respeito, mas comunica constantemente através de gritos, a mensagem que chega à criança é contraditória. Se diz que devemos limitar o tempo de ecrã, mas passa todo o jantar a olhar para o telemóvel, também existe uma incoerência. O mesmo acontece quando pedimos à criança que leia mais livros, mas nunca nos vê pegar num. Ou quando insistimos para que pratique exercício físico enquanto nós próprios levamos uma vida totalmente sedentária. Isto não significa que os pais tenham de ser perfeitos. Significa apenas que as nossas ações acabam, muitas vezes, por ensinar mais do que os nossos discursos.
Dizemos muitas vezes, “o meu filho não me ouve”, mas sejamos honestos, todos os pais, em algum momento, viveram situações em que aquilo que fizeram não correspondeu exatamente àquilo que gostariam de ensinar e está tudo bem com isso, isso faz parte da parentalidade.
Quem nunca disse:
Estes momentos não fazem de ninguém um mau pai ou uma má mãe, fazem de nós seres humanos e o importante não é nunca errar. O importante é termos consciência destes momentos e percebermos que também eles educam porque, quando existe coerência entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos, a mensagem torna-se muito mais forte.
O exemplo também ensina a lidar com os erros e os filhos não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais suficientemente bons, pais que, naturalmente, vão cometer erros, pais que, por vezes, vão perder a paciência, pais que nem sempre vão conseguir responder da forma que gostariam. O que realmente faz a diferença é aquilo que acontece depois. Quando um adulto consegue dizer: “Hoje falei contigo num tom que não gostei. Desculpa.” está a ensinar muito mais do que educação, está a ensinar responsabilidade, humildade, respeito e, acima de tudo, está a mostrar à criança que ninguém é perfeito e que o amor não desaparece porque existiu um momento difícil.
Quando falamos da importância do exemplo, é importante esclarecer uma ideia: as crianças não copiam automaticamente tudo aquilo que observam. O desenvolvimento infantil é muito mais complexo do que uma simples imitação.
Uma criança pode ver um adulto beber um copo de vinho ao jantar ou tomar um café todas as manhãs e isso não significa que vá reproduzir esses comportamentos. Da mesma forma, pode observar um pai a conduzir um carro e não sentir necessidade de fazer o mesmo. À medida que cresce, a criança vai desenvolvendo a capacidade de compreender que existem comportamentos próprios dos adultos e outros adequados à sua idade. É precisamente por isso que os limites, as regras e as conversas ajustadas ao desenvolvimento continuam a ter um papel fundamental.
Educar pelo exemplo não significa deixar que a criança “aprenda sozinha” apenas através da observação. Significa que aquilo que dizemos ganha muito mais força quando é acompanhado por comportamentos coerentes. Imaginem, por exemplo, que querem ensinar o vosso filho a respeitar os outros. Naturalmente, será importante conversar sobre esse tema, explicar a importância da empatia e corrigir comportamentos desadequados quando surgirem. Contudo, se essa criança crescer a ver os pais tratarem os outros com respeito, ouvindo um “obrigado”, um “por favor”, um pedido de desculpa quando erram e uma comunicação respeitosa mesmo nos momentos de conflito, essa aprendizagem torna-se muito mais consistente.
As palavras orientam e o exemplo dá-lhes credibilidade! 🙂
Quando pensamos em educar pelo exemplo, é comum lembrarmo-nos da forma como falamos para os nossos filhos, mas há uma dimensão que, muitas vezes, passa despercebida: a forma como falamos connosco próprios. Uma criança que cresce a ver os pais a dizerem frases como:
Vai aprendendo, mesmo sem intenção, que é assim que uma pessoa deve falar consigo própria quando erra. Por outro lado, quando observa um adulto que reconhece os seus erros sem se destruir por causa deles, aprende uma lição igualmente importante: é possível falhar sem deixar de gostar de quem somos. Da mesma forma, o modo como os pais cuidam da própria saúde física e mental também transmite mensagens muito importantes. Quando uma criança vê os pais descansarem, estabelecerem limites, pedirem ajuda quando precisam ou procurarem apoio psicológico, aprende que cuidar de si não é um sinal de fraqueza, mas sim uma forma de responsabilidade.
O exemplo também ensina autocuidado e são as pequenas atitudes que deixam grandes marcas, não as grandes conversas.
Nenhum pai ou mãe conseguirá ser coerente em todos os momentos, haverá dias de cansaço, impaciência e incoerência e isso faz parte. A diferença está em cultivar uma atitude de reflexão e disponibilidade para reparar. Educar pelo exemplo não significa nunca falhar. Significa procurar que, na maior parte do tempo, aquilo que fazemos esteja alinhado com aquilo que desejamos ensinar, porque é essa consistência que transmite segurança às crianças. E é esta segurança que lhes permite crescer com referências claras sobre a forma como querem relacionar-se consigo próprias e com os outros. É neste quotidiano, feito de pequenos gestos aparentemente insignificantes, que acontece grande parte da educação pois inevitavelmente, os pais são a primeira e mais importante referência da criança.
No fim de contas, educar não é apenas ensinar aquilo que queremos que os nossos filhos façam. É mostrar-lhes, todos os dias, através das nossas próprias ações, a pessoa que esperamos ajudá-los a tornar-se.
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