A 10 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Saúde Mental, data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para promover a consciencialização sobre a importância do bem-estar psicológico. Uma data que pretende quebrar o silêncio em torno de um tema que ainda carrega estigmas, receios e muitos mal-entendidos. Apesar de a saúde mental ser uma componente essencial do bem-estar humano, continua, em muitos contextos, a ser tratada como um assunto secundário ou apenas relevante em situações de crise.
No entanto, cuidar da mente é cuidar da vida. É garantir que temos as ferramentas emocionais para lidar com o stress, com as mudanças, com as perdas e também com os momentos de alegria. Nos últimos anos, tem-se assistido a um aumento expressivo dos casos de ansiedade, depressão e exaustão emocional, em todas as faixas etárias, inclusive nas crianças e jovens. Ainda existe a crença de que “as crianças não têm problemas”, que são naturalmente felizes, leves e despreocupadas. No entanto, a verdade é que também as crianças sentem medo, tristeza, ansiedade, frustração e solidão. Com o aumento de exigências escolares, agendas preenchidas de atividades e a constante exposição a estímulos digitais, nunca foi tão importante olhar para a saúde emocional infantil com atenção, empatia e responsabilidade.
Cuidar da mente desde cedo é preparar o caminho para o futuro. Tal como cuidamos da alimentação, do sono e das vacinas, também precisamos de garantir que as crianças crescem emocionalmente saudáveis. E isso começa em casa e na escola, na forma como os adultos de segurança validam as emoções, acolhem as fragilidades e ensinam o que é autocuidado.
Saúde mental infantil importa
A saúde mental envolve a forma como pensamos, sentimos e nos comportamos. Inclui a capacidade de lidar com o stress, de nos relacionarmos com os outros e de tomar decisões conscientes. Não significa estar sempre feliz ou calmo, mas sim saber gerir as emoções e os desafios de forma saudável.
A OMS define-a como “um estado de bem-estar no qual o indivíduo reconhece as suas próprias capacidades, pode lidar com as tensões normais da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a comunidade”.
Quando falamos de crianças, esta definição ganha alguns contornos próprios. Uma criança mentalmente saudável é aquela que:
- Mostra capacidade para brincar, imaginar e criar;
- Consegue compreender e expressar emoções de forma adequada;
- Sente-se segura e amada nas suas relações;
- Consegue adaptar-se às mudanças e frustrações;
- Tem curiosidade, confiança e prazer em aprender;
- Demonstra autoestima e sentido de identidade positiva;
- Sabe pedir ajuda quando precisa.
No entanto, estes aspetos não nascem sozinhos, são construídos através das experiências, vínculos e modelos que a criança observa.
Os primeiros anos de vida são determinantes para o desenvolvimento emocional e cerebral. As ligações afetivas, a forma como os cuidadores respondem às necessidades da criança e a segurança emocional que transmitem moldam a forma como ela se verá a si própria e ao mundo. Assim, a saúde mental infantil é uma base: dela depende a autoestima, a motivação, a empatia e a capacidade futura de lidar com desafios.
Dados que não podemos ignorar
Os dados recentes da Organização Mundial da Saúde e da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) mostram uma realidade que exige atenção:
- A saúde mental dos jovens é uma das maiores preocupações atuais: o aumento de ansiedade, autoexigência e isolamento social reflete um cenário de vulnerabilidade crescente;
- Estimativas da OMS apontam que cerca de 20% das crianças e adolescentes terão pelo menos uma perturbação mental antes de completarem 18 anos;
- Em Portugal, estima-se que entre 10% a 20% das crianças tenham um ou mais problemas de saúde mental, mas apenas cerca de 25% dessas crianças chegam a ser referenciadas para serviços especializados.
Estes números lembram-nos que ninguém está imune. A saúde mental é uma responsabilidade partilhada entre famílias, escolas, profissionais e sociedade. Cuidar do bem-estar emocional das crianças e adolescentes é investir num futuro mais equilibrado, saudável e humano.
Sinais de alerta na saúde mental das crianças
Nem sempre é fácil identificar quando uma criança está a sofrer emocionalmente. Ao contrário dos adultos, elas nem sempre conseguem verbalizar o que sentem — o mal-estar pode aparecer através de comportamentos, alterações físicas ou regressões.
Alguns sinais que merecem atenção incluem:
- Alterações de comportamento – Quando a criança começa a isolar-se, a perder o interesse por brincadeiras, ou mostra uma irritabilidade constante, pode estar a sinalizar que algo não vai bem;
- Mudanças no sono ou no apetite – Dormir mal, ter pesadelos frequentes, falta ou excesso de apetite são indicadores comuns de stress infantil. O corpo é, muitas vezes, o primeiro a manifestar o que a mente sente;
- Queixas físicas sem causa médica aparente – Dores de cabeça, de barriga ou enjoos frequentes podem ser manifestações de ansiedade ou tensão emocional, especialmente quando os exames médicos não revelam nada;
- Tristeza, medo ou preocupação excessiva – Se a criança apresenta humor triste, chora facilmente, evita interações ou mostra-se demasiado preocupada com o futuro, é importante observar com atenção e procurar ajuda;
- Regressões no desenvolvimento – Voltar a urinar na cama, querer dormir com os pais ou falar de forma mais infantil podem ser sinais de insegurança emocional ou de que algo perturbou o equilíbrio da criança;
- Comportamentos agressivos ou de oposição – A agressividade nem sempre é “falta de limites”. Pode ser a forma que a criança encontrou de expressar frustração, medo ou sensação de injustiça. Olhar para o comportamento é importante, mas compreender o que está por trás é essencial, na maior parte das vezes estão a passar uma mensagem, uma necessidade.
Estes sinais não significam necessariamente um problema psicológico grave, mas são alertas de que a criança precisa de atenção emocional. Ouvir, acolher e procurar ajuda atempadamente pode evitar que pequenos desequilíbrios cresçam e se transformem em sofrimento prolongado.
O papel dos pais e da escola na promoção da saúde mental infantil
Promover a saúde mental desde a infância é uma responsabilidade partilhada entre família, escola e comunidade. O lar é o primeiro espaço onde a criança aprende a reconhecer e a gerir emoções, a construir segurança e a desenvolver a confiança em si e nos outros. Pais emocionalmente disponíveis, que validam os sentimentos dos filhos, ensinam-lhes que todas as emoções têm um lugar e um propósito, mesmo as mais desafiantes, como a raiva ou a tristeza.
A escola, por sua vez, tem um papel essencial na continuidade deste trabalho, oferecendo um ambiente onde a criança se sente aceite, valorizada e estimulada a crescer de forma integral. Professores que escutam, que ensinam competências socioemocionais e que promovem relações de respeito contribuem para prevenir o isolamento, a ansiedade e o sofrimento psicológico.
Quando pais e educadores trabalham em conjunto comunicando, observando e intervindo precocemente é possível criar uma base sólida de bem-estar emocional. Investir na saúde mental desde cedo não é apenas prevenir problemas futuros é ajudar as crianças a tornarem-se adultos mais seguros, empáticos e equilibrados.
A promoção da saúde mental infantil não depende apenas de grandes estratégias, começa, muitas vezes, nos gestos mais simples do dia a dia. É no modo como os adultos respondem às emoções, organizam rotinas ou demonstram afeto que as crianças aprendem a sentir-se seguras e valorizadas. Partilho pequenas ações diárias que podem fazer diferença:
- Estabelecer momentos diários de conversa e escuta verdadeira, sem interrupções;
- Ensinar o nome das emoções e falar delas com naturalidade;
- Manter uma rotina previsível, mas flexível, que transmita segurança;
- Valorizar o esforço mais do que o resultado;
- Promover o brincar livre e o contacto com a natureza;
- Incentivar a autonomia e celebrar as pequenas conquistas;
- Mostrar todos os dias, seja com gestos e/ou palavras que a criança é amada exatamente como é.
Os pais precisam de cuidar de si para cuidar melhor
Uma das formas mais eficazes de cuidar da saúde mental das crianças é cuidar da própria saúde mental dos pais. Cuidadores sobrecarregados, exaustos e sem tempo para si têm mais dificuldade em responder com calma e empatia às necessidades dos filhos.
A infância é um espelho do ambiente emocional em que a criança cresce. Quando os adultos se autorizam a descansar, pedir ajuda, cuidar das suas emoções, estão também a ensinar pelo exemplo. Como se costuma dizer: “não podemos dar o que não temos”. A parentalidade consciente começa por aqui, no autoconhecimento, na empatia e na capacidade de estar presente.
Saúde mental na infância é investir no futuro
A saúde mental deve ser tratada como prioridade não apenas quando algo corre mal, mas todos os dias. Cuidar da mente é cuidar das relações, do corpo e da própria vida.
A saúde mental não começa na idade adulta, começa no colo, nas palavras e nos gestos. Uma criança emocionalmente saudável cresce com maior capacidade de empatia, resiliência e autocontrolo. Promover a saúde mental infantil é um ato de amor e de responsabilidade: é garantir que as gerações futuras terão ferramentas para lidar com a vida com equilíbrio e esperança.
O Dia Mundial da Saúde Mental é mais do que uma data, é um lembrete de que cada gesto conta. Ouvir, compreender e cuidar são os primeiros passos para construir um mundo mais consciente, onde a saúde mental é prioridade desde os primeiros anos de vida.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) disponibiliza campanhas, recursos e documentos gratuitos sobre bem-estar psicológico e desenvolvimento saudável. Estes materiais são uma excelente forma de aprofundar o conhecimento e promover práticas de prevenção junto das famílias, escolas e comunidades. Consulta em https://recursos.ordemdospsicologos.pt/repositorio/pesquisa