Suicídio na infância é um tema que causa desconforto. Talvez até pareça que estas são duas realidades que não deveriam encontrar-se na mesma frase. No entanto, crianças e adolescentes também podem experienciar sofrimento psicológico intenso e, em alguns casos, pensamentos relacionados com a morte ou com o desejo de deixar de viver. A infância e a adolescência são períodos de desenvolvimento marcados por rápidas mudanças físicas, sociais, psicológicas e cognitivas. Durante estas fases, as experiências vividas e o ambiente em que crescemos podem ter um impacto significativo no desenvolvimento e bem-estar pois são períodos com um elevado potencial para um desenvolvimento saudável, mas também de maior vulnerabilidade perante determinadas experiências adversas.
A exposição a fatores de risco durante esta fase pode contribuir para o surgimento ou agravamento de diversas problemáticas de saúde mental, nomeadamente o consumo de substâncias, a automutilação, a depressão e a ansiedade. Em algumas situações, e sobretudo quando se conjugam diferentes fatores de vulnerabilidade, estas dificuldades podem estar associadas à ideação suicida e, em casos mais graves, a comportamento suicida.
O suicídio constitui um importante problema de saúde pública a nível mundial, afetando pessoas de diferentes faixas etárias. Apesar de a saúde mental ser um tema cada vez mais discutido, o número de mortes por suicídio continua a ser preocupante. Na adolescência, esta questão assume particular relevância, sendo o suicídio uma das principais causas de morte entre os jovens a nível mundial. Neste sentido, falar sobre este tema não só se torna necessário como urgente. Falar sobre este tema não significa colocar ideias na cabeça de uma criança ou adolescente. Pelo contrário, quando existe preocupação, criar espaço para conversar pode ser uma das formas mais importantes de perceber o que está a acontecer e procurar ajuda atempadamente.
Ao longo deste período surgem vários desafios para as crianças/adolescentes, e quanto mais fatores de risco eles enfrentam, maior é o impacto potencial na sua saúde mental. É importante sublinhar que a presença de um fator de risco não significa necessariamente o desenvolvimento de uma perturbação mental ou de comportamentos suicidas.
Entre os fatores que podem contribuir para o sofrimento psicológico durante a infância e a adolescência destacam-se os seguintes:
É igualmente importante falar dos fatores de proteção. Relações familiares seguras e positivas, adultos disponíveis, amizades saudáveis, sentimento de pertença, competências de regulação emocional e acesso atempado a cuidados de saúde mental podem ajudar a reduzir a vulnerabilidade e a promover o bem-estar.
Muitos dos fatores a que as crianças e adolescentes estão expostos estão, em alguma medida, sob a influência dos pais. Isto significa que há coisas que os adultos mais próximos podem fazer para reduzir alguns dos riscos e prevenir ou diminuir o sofrimento.
Uma educação parental baseada no afeto, na escuta, na disponibilidade e no apoio pode ter uma diferença significativa na forma como crianças/adolescentes enfrentam os desafios desta fase. Mais do que nunca, a relação que os pais constroem com os filhos é um importante fator de proteção. Relações positivas, seguras e de confiança com os pais e cuidadores são fundamentais para promover o bem-estar, a saúde mental e um desenvolvimento saudável.
É importante, por isso, estar atento a mudanças no comportamento, no humor ou no prazer que os filhos demonstram nas suas atividades habituais.
Alguns dos sinais a que os pais devem estar atentos são:
Se há coisas que os pais podem fazer para ajudar a promover o bem-estar e diminuir e prevenir o sofrimento significativo, há também comportamentos e atitudes que devem ser evitados.
1. Assumir o controlo da discussão e dizer-lhes o que devem fazer
Ao invés de assumir imediatamente o controlo da situação, pode ser útil perguntar o que podemos fazer para ajudar e colaborar na procura de soluções. Isto não significa deixar orientar ou estabelecer limites. Significa, sempre que possível, envolver a criança ou adolescente na compreensão do problema e na procura da resolução.
2. Discutir quando estiver zangado
Quando estamos irritados e desregulados, é importante parar, gerir as nossas emoções e depois, então, procurar estabelecer um diálogo. Levar a cabo uma conversa quando estamos muito ativados emocionalmente tende a contribuir para uma escalada negativa do conflito.
3. Em vez de assumir o que precisam, perguntar como podemos ajudar
Perguntar como podemos ajudar não significa deixar de orientar, estabelecer regras ou definir limites. Significa evitar dar soluções automaticamente e perceber primeiro o que eles estão a sentir e o que precisam.
4. Desvalorizar ou minimizar sentimentos
Até para nós, adultos, pode não ser fácil partilhar o que sentimos. Os adolescentes também podem ter dificuldades em expressar o que sentem e é importante procurarmos validar as suas emoções, ainda que possamos não as compreender. Todas as emoções, por mais complexas e distantes da nossa realidade que possam parecer, são experiências válidas. Validar uma emoção não significa concordar com todos os comportamentos associados a essa emoção. Podemos compreender a raiva e, ao mesmo tempo, estabelecer limites relativamente à agressividade, podemos compreender a tristeza, e simultaneamente, procurar ajuda quando o sofrimento é intenso ou persistente.
5. Culpar os outros.
Dizer “A culpa é da tua escola!”, por exemplo, externaliza o problema, mas não o resolve. É importante compreender o papel da escola, da família, das relações ou de outros contextos, mas procurar imediatamente um culpado pode afastar-nos daquilo que é mais urgente: perceber o que a criança ou jovem está a viver e como podemos ajudar.
6. Comparar.
Evitar dizer coisas como “As outras crianças não têm estes problemas”. Comparar o sofrimento tende a dificultar a partilha. O objetivo não é decidir se o problema é suficientemente grave para justificar o sofrimento, mas compreender o que a criança/adolescente está a viver para poder intervir adequadamente.
Não existe uma frase mágica capaz de prevenir o sofrimento psicológico, mas existe algo que os pais podem construir todos os dias, uma relação em que a criança ou adolescente sabe que pode procurar ajuda quando algo não está bem. Mostrar preocupação e apoio pode ser mais importante do que ter uma solução imediata para as dificuldades que possam existir.
Uma relação de confiança não se constrói apenas nas grandes conversas, constrói-se também nas pequenas interações do dia-a-dia, por exemplo, perguntar como correu o dia, ouvir as partilhas que são feitas, fazer refeições em conjunto, acompanhar uma atividade ou simplesmente estar presente.
A escuta ativa é um dos fatores mais importantes na comunicação. Quem escuta ativamente está envolvido, é atencioso, não julga e demonstra empatia, mesmo quando, e especialmente quando não concorda com os pontos de vista do outro.
A criança/adolescente muitas vezes pode ter opiniões diferentes das nossas, e nem sempre vamos concordar. No entanto, isso não significa necessariamente que a sua opinião esteja errada. Respeitar e valorizar os seus pontos de vista também contribui para que aprenda a respeitar os nossos.
Ouvir ativamente ajuda as crianças e adolescentes a sentirem-se ouvidos, compreendidos e menos sozinhos. Em contrapartida, se não ouvirmos devidamente, corremos o risco de as fazer sentir que estamos a ignorar as suas preocupações e a invalidar os seus sentimentos. Isto pode levá-las a sentir-se defensivas, frustradas, sozinhas ou magoadas.
Há demasiadas crianças/adolescentes que enfrentam sozinhos os desafios relacionados com a saúde mental. Enquanto pais e cuidadores, podemos contribuir para mudar essa situação, proporcionando ambientes acolhedores e cheios de amor fazendo perguntas simples como: “Como estás?”, “O que te vai na cabeça?” “Precisas de falar com alguém?”.
É importante que sejam criadas oportunidades para conversar. Podemos procurar momentos em que a conversa surja de forma natural, por exemplo, enquanto fazemos tarefas domésticas, cozinhamos ou viajamos juntos. Também pode ser útil começar a conversa depois de um momento positivo, em vez de esperar apenas pelos momentos de conflito. Nem todas as conversas importantes precisam de acontecer frente a frente. Para algumas crianças e adolescentes, conversar durante uma viagem de carro, um passeio ou enquanto fazem uma atividade em conjunto pode diminuir a pressão. Reconhecer o que há de bom e de difícil e elogiá-los pelas conquistas, mesmo que sejam pequenas, também é importante. Esta fase de desenvolvimento é também um momento de descoberta, criatividade e crescimento pessoal.
Acompanhar os seus hábitos nas redes sociais, na internet e conversar com eles sobre aquilo que encontram online pode ajudar a protegê-los do assédio e do bullying na Internet. Mais do que controlar apenas o tempo passado online, importa também conhecer, de forma adequada à idade, os ambientes digitais em que a criança/adolescente participa e criar espaço para que possa falar sobre experiências negativas que tenha vivido.
É importante estarmos atentos e disponíveis, e isso pode ser feito em coisas simples do quotidiano: perguntar como foi o dia, contarmos sobre o nosso próprio dia e desafios que enfrentamos, convidar a ajudar numa tarefa e permitir que a conversa surja de forma orgânica. Também pode ser bom aproveitar filmes, séries ou outras formas de entretenimento do interesse do adolescente para abordar temas como suicídio, depressão, sexualidade, ou outras questões difíceis. Falar sobre uma personagem ou sobre uma situação apresentada num filme pode criar um espaço mais seguro e de menor pressão, que permita partilhar pensamentos e opiniões sem sentir que está a ser interrogado. É importante reconhecer e compreender as emoções que a criança ou adolescente possa estar a sentir, mesmo que isso pareça desconfortável. Quando existir partilha de sentimentos, podemos responder algo como “Eu compreendo”, “Parece uma situação difícil” ou “Consigo perceber porque isso te afetou”. Também é importante reparar e elogiar comportamentos positivos, mesmo que pequenos, em vez nos concentrarmos exclusivamente naquilo que fazem e nos desagrada.
É importante ouvir as opiniões do adolescente e tentar resolver os conflitos com calma. Devemos evitar discutir um assunto quando estamos demasiado emocionalmente ativados. Por isso, se possível, afastarmo-nos temporariamente da situação para nos acalmarmos e conversar depois pode ser útil. Honestidade, transparência e vulnerabilidade podem ser desconfortáveis, mas educar pelo exemplo permite mostrar que também nós sentimos stress e emoções difíceis e que procuramos formas de lidar com elas. Quando houver um conflito, reserva algum tempo para refletir sobre como podem resolvê-lo juntos. Os filhos aprendem muito através daquilo que observam. Quando um adulto reconhece que está demasiado zangado, faz uma pausa e regressa posteriormente à conversa, está também a modular uma estratégia de regulação emocional. É importante distinguir emoção de comportamento, todas as emoções podem ser compreendidas mas nem todos comportamentos são aceitáveis.
É exigente cuidar de alguém, e a pessoa que cuida também precisa de ser cuidada. Cuidares de ti é a melhor forma de garantires estar bem para cuidar do teu filho.
Não hesites em pedir ajuda aos outros se te sentires sobrecarregado. É um sentimento válido e sobre o qual deves procurar conversar com alguém com quem te sintas seguro. Reserva tempo para as tuas próprias relações e procura manter pessoas com quem possas partilhar sentimentos e experiências. Reserva tempo no teu dia para fazeres coisas de que gostas e que te ajudam a lidar com o stress. Não há bateria que resista se não for recarregada, com a energia positiva que advém das coisas que são significativas para nós. Explora e alarga o teu reportório de estratégias para enfrentar e lidar com desafios. Algumas ideias incluem: fazer exercício, conversar com amigos, fazer listas de tarefas ou planear com antecedência, manter rotinas, identificar coisas pelas quais sentimos gratidão ou que nos orgulham, e fazermos coisas que nos dão verdadeiramente prazer.
Ao mesmo tempo, é importante lembrar que o autocuidado dos pais não substitui o acompanhamento profissional quando existe o sofrimento psicológico significativo.
Se existe sofrimento persistente, comportamentos de autoagressão, pensamentos sobre a morte ou suicídio, alterações marcadas do comportamento ou preocupação relativamente à segurança da criança ou adolescente, é crucial procurar ajuda profissional. Não é necessário esperar que a situação se agrave para pedir ajuda. Um psicólogo, psiquiatra ou médico pode ajudar a compreender o que está a acontecer e a definir os próximos passos. Quando uma criança ou adolescente fala diretamente sobre suicídio, é importante levar essa comunicação a sério e procurar compreender o nível de risco, em vez de assumir que se trata apenas de uma forma de chamar a atenção ou de uma reação passageira
E se existir risco imediato?
Se a criança ou adolescente disser que pretende morrer, apresentar um plano para se suicidar, tiver acesso a meios para se magoar ou não conseguir garantir a sua própria segurança, a situação deve ser tratada como urgente. Nestas circunstâncias, não deve ficar sozinho. Deve ser procurada ajuda imediata através do 112 ou de um serviço de urgência e sempre que possível, deve também ser reduzido o acesso a meios potencialmente perigosos enquanto se procura ajuda profissional.
Todos os anos, mais de 720 000 pessoas morrem por suicídio em todo o mundo. Entre os jovens dos 15 aos 29 anos, o suicídio é atualmente a terceira principal causa de morte a nível mundial. A Organização Mundial da Saúde estima ainda que 1 em cada 7 adolescentes entre os 10 e os 19 anos viva com uma perturbação de saúde mental.
Estes números ajudam-nos a perceber a dimensão do problema, mas não contam toda a história. Por detrás de cada número existe uma pessoa, uma família e, muitas vezes, um sofrimento que nem sempre foi reconhecido a tempo. Para uma criança ou adolescente que está a sofrer, saber que existe um adulto disponível para ouvir pode ser um primeiro passo importante. Falar sobre suicídio pode ser difícil, contudo, o silêncio não protege.
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