As férias são habitualmente associadas a descanso, tranquilidade e bem-estar. Existe a expectativa de que sejam um período de recuperação física e mental, livre das exigências do trabalho e da rotina. No entanto, para muitas pessoas, acontece precisamente o contrário: é durante este período que surgem crises de ansiedade ou mesmo ataques de pânico.
A ansiedade nas férias pode parecer contraditória. Afinal, se o stress diminui, porque aumenta a ansiedade? A resposta pode estar na forma como o cérebro e o corpo reagem às mudanças de ritmo, às emoções acumuladas e às expectativas criadas em torno deste período.
Para compreendermos por que motivo pode surgir ansiedade nas férias, é importante lembrar que nem sempre a ansiedade está associada a períodos de maior pressão, como excesso de trabalho, exames ou dificuldades nos relacionamentos.
Na verdade, a ansiedade nem sempre anda de braço dado com fatores de stress evidentes, nem precisa de ter um gatilho situacional muito concreto e visível.
Na verdade, muitas pessoas vivem durante meses num estado de atividade constante, ocupando o tempo com trabalho, responsabilidades e tarefas. Quando finalmente chegam as férias e o ritmo abranda, deixam de existir distrações suficientes para manter determinadas preocupações “silenciadas”.
Como resultado, pensamentos, emoções e sintomas físicos que estavam em segundo plano podem passar a ocupar um lugar central.
Por outras palavras, não são necessariamente as férias que provocam ansiedade. Muitas vezes, são elas que criam espaço para que a ansiedade que já existia se manifeste, dando origem àquilo que muitas pessoas descrevem como ansiedade nas férias.
Quando vivemos durante muito tempo sob níveis elevados de stress, o organismo adapta-se a esse funcionamento.
O sistema nervoso pode permanecer em estado de alerta durante semanas ou meses, mantendo ativa a resposta fisiológica ao stress e a libertação de hormonas como o cortisol e a adrenalina.
Quando esse estado de ativação diminui de forma abrupta, como pode acontecer durante as férias, algumas pessoas experienciam uma sensação de estranheza. O corpo, habituado a funcionar constantemente em “modo de sobrevivência”, pode interpretar esta mudança como algo inesperado, favorecendo o aparecimento de sintomas de ansiedade.
É um pouco como um motor que esteve muito tempo em alta rotação e que, de repente, abranda. A adaptação nem sempre é imediata.
Esta dificuldade de adaptação à desaceleração pode ajudar a explicar o aparecimento de ansiedade nas férias, mesmo quando não existe qualquer problema ou ameaça evidente.
Quando uma pessoa vivencia um ataque de pânico durante as férias, pode sentir-se profundamente confusa e ter dificuldade em compreender o que está a acontecer.
“Porque me sinto assim, se está tudo bem?”
Esta confusão pode aumentar ainda mais o sentimento de impotência. Afinal, é difícil lidar com aquilo que não compreendemos.
Existe a ideia de que o pânico acontece apenas em momentos de grande pressão. No entanto, pode surgir precisamente quando a pessoa sente que, finalmente, pode descansar.
Durante os períodos mais exigentes, o cérebro está focado em resolver problemas, cumprir tarefas e responder às exigências do dia a dia. Quando essas exigências desaparecem, pode aumentar a atenção dirigida para as sensações corporais.
Uma aceleração do ritmo cardíaco, uma sensação de tontura ou dificuldade em respirar (sintomas compatíveis com a ansiedade) podem ser interpretados como sinais de perigo. Esta interpretação aumenta o medo, intensifica as sensações físicas e pode desencadear um ciclo que culmina num ataque de pânico.
Outro fator frequentemente esquecido é o peso das expectativas.
Existe uma forte pressão social para que as férias sejam perfeitas: descansar, viajar, divertir-se, aproveitar todos os momentos e regressar completamente renovado.
Quando a realidade não corresponde a estas expectativas, podem surgir frustração, culpa ou a sensação de que “há algo de errado comigo”.
Também podem existir conflitos familiares, dificuldades financeiras, viagens stressantes ou simplesmente a perceção de que não estamos a conseguir descansar como esperávamos.
Quanto maior for a expectativa de que “tenho obrigatoriamente de estar feliz”, maior poderá ser a ansiedade quando isso não acontece.
As férias não eliminam automaticamente os problemas, as preocupações ou o mal-estar emocional. Em alguns casos, podem torná-los mais visíveis e contribuir para o aumento da ansiedade nas férias.
Quando o ritmo abranda, as emoções ganham espaço
Ao longo do ano, muitas pessoas adiam o contacto com as suas emoções.
O trabalho, as responsabilidades e a rotina podem funcionar como uma forma de distração permanente. Enquanto existe algo para fazer, torna-se mais fácil evitar determinados pensamentos, preocupações ou sentimentos.
Durante as férias, esse espaço deixa de estar tão preenchido. Por isso, é frequente surgirem emoções relacionadas com situações que ficaram por resolver, preocupações com o futuro, dificuldades nos relacionamentos ou um sentimento geral de insatisfação que antes passava despercebido.
Embora possa ser desconfortável, isto não significa necessariamente que a ansiedade esteja pior. Muitas vezes, significa apenas que existe agora espaço para a ouvir.
Podemos pensar na ansiedade como um alarme interno que nos sinaliza a existência de fatores de ameaça, reais ou percebidos. É como se, durante grande parte do ano, vivêssemos com um silenciador que nos impede de ouvir esse alarme.
Quando o silenciador deixa de estar presente, a ansiedade faz-se ouvir com toda a sua força. Afinal, um alarme procura cumprir a sua função: chamar a atenção e sinalizar um possível perigo.
Apesar de estas expressões serem frequentemente utilizadas como sinónimos, não representam exatamente o mesmo fenómeno.
Uma crise de ansiedade caracteriza-se habitualmente por um aumento progressivo dos sintomas de ansiedade. Podem surgir:
Numa crise de ansiedade, existe geralmente um fator desencadeador, sendo a crise uma resposta exacerbada a uma situação, pensamento ou interpretação de ameaça.
Já um ataque de pânico surge de forma súbita, muitas vezes sem um desencadeador evidente, e atinge rapidamente uma intensidade muito elevada.
Durante um ataque de pânico podem surgir sintomas como:
Apesar de ser uma experiência extremamente assustadora, um ataque de pânico não coloca, por si só, a vida em risco. Ainda assim, sintomas físicos intensos ou desconhecidos devem ser avaliados por um profissional de saúde, sobretudo quando surgem pela primeira vez.
Se a ansiedade tende a aumentar durante os períodos de descanso, algumas estratégias podem ajudar a tornar a transição mais gradual e equilibrada.
É normal que o organismo precise de tempo para se adaptar a um ritmo diferente.
Sempre que possível, procura fazer esta transição de forma gradual, evitando passar diretamente de uma agenda completamente preenchida para dias totalmente vazios.
Os primeiros dias de férias podem servir como um período de desaceleração, e não como uma obrigação de sentir tranquilidade imediata.
Embora as férias impliquem uma maior flexibilidade, manter alguma consistência nos horários de sono, refeições e atividade física pode ajudar o organismo a sentir-se mais estável.
Não é necessário seguir uma rotina rígida. O objetivo é preservar alguns pontos de referência que transmitam previsibilidade e segurança.
Existe uma diferença entre descansar e sentir pressão para descansar.
Nem todas as férias precisam de ser produtivas, memoráveis ou perfeitas. Também não precisas de aproveitar todos os minutos ou regressar completamente renovado.
Descansar pode significar simplesmente abrandar, reduzir exigências e respeitar aquilo de que realmente necessitas.
Quanto mais tentamos eliminar imediatamente os sintomas de ansiedade, maior atenção lhes damos.
Aprender a reconhecer os sinais do corpo sem assumir automaticamente que representam perigo pode ajudar a reduzir a intensidade do ciclo ansioso.
Em vez de pensar “isto não pode estar a acontecer”, pode ser útil reconhecer: “estou a sentir ansiedade; é desconfortável, mas esta sensação vai passar”.
As férias não precisam de corresponder a uma imagem idealizada.
Podem existir dias bons, dias menos bons, momentos de cansaço, conflitos, tédio ou necessidade de estar sozinho. Tudo isso faz parte de uma experiência real.
Aceitar esta diversidade emocional pode diminuir a pressão e ajudar a viver o período de descanso de forma mais autêntica.
Se as crises de ansiedade ou os ataques de pânico surgem repetidamente, interferem com as férias ou limitam o teu dia a dia, pode ser importante procurar acompanhamento psicológico.
A psicoterapia permite compreender a origem da ansiedade, identificar os fatores que a desencadeiam e mantêm e desenvolver estratégias mais eficazes para lidar com os sintomas.
Pode ser importante procurar apoio profissional quando:
Pedir ajuda não significa que falhaste em descansar ou que és incapaz de lidar com as tuas emoções. Significa que reconheceste que não precisas de enfrentar este sofrimento sozinho.
Sentir ansiedade nas férias pode gerar estranheza, sobretudo quando acreditamos que esta deveria ser a época mais tranquila do ano.
No entanto, as férias não criam necessariamente a ansiedade. Muitas vezes, apenas retiram parte do ruído da rotina, permitindo que emoções e preocupações acumuladas se façam ouvir.
Em vez de interpretar estes momentos como um sinal de fraqueza ou incapacidade para descansar, pode ser útil encará-los como um convite para olhar com maior atenção para o teu bem-estar emocional.
Cuidar da saúde mental envolve aprender a parar, ouvir o corpo e dar espaço às emoções — mesmo quando aquilo que surge não corresponde às expectativas que tínhamos para as férias.
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