“Por qualquer coisa ela chora.”
“Já lhe expliquei tantas vezes. Porque é que continua a fazer o mesmo?”
“Será que estou a fazer alguma coisa mal?”
Estas são algumas das questões que podem surgir na mente de muitos pais e cuidadores, especialmente quando se trata do primeiro filho ou dos primeiros anos de vida da criança.
As birras são frequentemente uma das principais fontes de frustração e desgaste emocional para os pais e cuidadores. Muitas vezes, perante estes momentos, surge a sensação de não saber como agir, de já ter tentado todas as estratégias ou de não conseguir encontrar uma forma de lidar com a situação.
Mas será que estamos, por vezes, a exigir às crianças que ajam de uma forma da qual ainda não têm os recursos emocionais necessários?
A primeira infância, particularmente entre os 2 e os 5 anos, é uma fase marcada pela rápida aquisição de novas aprendizagens. Durante este período, a criança desenvolve diversas competências a nível cognitivo, como a linguagem e a capacidade de resolver problemas, mas também competências relacionadas com a autonomia e o desenvolvimento socioemocional.
É precisamente nesta fase que a criança começa a aprender a reconhecer, compreender e gerir as suas emoções, competências que ainda estão em desenvolvimento e que nem sempre consegue colocar em prática. É neste contexto que podem surgir as birras, enquanto uma das formas através das quais a criança expressa aquilo que sente, sobretudo quando ainda não tem ferramentas para o fazer de outra maneira.
Tal como ensinamos às crianças a comunicar, a ler, a escrever e a relacionar-se socialmente, também é fundamental ensiná-las a reconhecer e a lidar com as suas emoções. A educação emocional é tão importante como qualquer outra aprendizagem e desempenha um papel essencial no desenvolvimento saudável da criança.
O desenvolvimento socioemocional diz respeito ao processo através do qual a criança aprende a reconhecer e expressar emoções, a relacionar-se com os outros, a desenvolver empatia, a construir uma imagem de si própria e a adquirir, progressivamente, competências para lidar com as suas emoções.
Durante os primeiros anos de vida, estas competências encontram-se ainda em desenvolvimento.
A criança começa a reconhecer aquilo que sente, a compreender que os outros também têm emoções e necessidades e a aprender formas de comunicar o que deseja. Progressivamente, vai desenvolvendo capacidades como a autorregulação, a tolerância à frustração, a resolução de conflitos, a tomada de decisão e a autonomia.
Estas competências são construídas através da experiência, da brincadeira, da repetição e, sobretudo, das relações que a criança estabelece com os adultos significativos da sua vida. O adulto tem, por isso, a responsabilidade de também ensinar a criança a desenvolver estas competências.
Quando pensamos numa criança feliz, é comum imaginarmos uma criança que brinca, sorri, está tranquila e parece satisfeita com aquilo que a rodeia. E muitas vezes podemos pensar em formas para a proteger de situações ou contextos que podem levar a que a criança sinta emoções negativas (nomeadamente tristeza, raiva, etc).
Mas será que uma criança emocionalmente saudável é aquela que está sempre calma e feliz?
A verdade é que não.
Tal como os adultos, as crianças precisam de experienciar emoções como o medo, a tristeza, a raiva, a frustração, a ansiedade e a desilusão. Todas estas emoções fazem parte da experiência humana e desempenham funções importantes na forma como nos relacionamos com o mundo que nos rodeia. Mais do que isso, são também fundamentais para o desenvolvimento de competências emocionais que nos permitem lidar com os diferentes desafios da vida, como a resiliência.
Cada emoção tem uma função e transmite-nos informações importantes sobre aquilo que estamos a viver. O medo, por exemplo, ajuda-nos a identificar possíveis situações de perigo e a proteger-nos. A raiva pode surgir quando sentimos que algo importante nos foi impedido ou perante uma situação que consideramos injusta. A tristeza pode surgir perante uma perda ou desilusão e favorecer a procura de apoio e conforto.
Assim, todas as emoções têm uma função e contribuem para a forma como interpretamos e respondemos às diferentes situações que vivemos. Não existem emoções boas ou más, certas ou erradas. Existem emoções agradáveis e desagradáveis, mas todas são importantes e merecem ser reconhecidas e validadas.
Por isso, tentar evitar que uma criança experiencie emoções desagradáveis não é necessariamente o caminho para promover o seu bem-estar emocional. Pelo contrário, é importante permitir-lhe sentir, reconhecer e compreender aquilo que está a experienciar. Inevitavelmente, ao longo da vida, a criança irá confrontar-se com situações que despertam medo, tristeza, raiva ou frustração. O mais importante não é impedir que estas emoções surjam, mas ajudá-la, desde cedo, a desenvolver ferramentas e estratégias para lidar com elas de forma ajustada.
Muitas vezes, aquilo que vemos primeiro numa criança é o comportamento. O choro, o grito, a birra, a oposição, a fuga ou a dificuldade em colaborar são sinais observáveis da emoção que a criança está a sentir e que ainda não consegue comunicar de uma forma clara.
É aí que entra a nossa função, como pais/cuidadores.
Por isso, em vez de interpretarmos imediatamente o comportamento como desobediência ou manipulação, por exemplo, pode ser útil perguntar:
“O que poderá estar a acontecer?”
“Que emoção poderá estar presente?”
“Existe alguma necessidade que ainda não foi satisfeita?”
“Que competência poderá estar a ser difícil para esta criança neste momento?”
“Como lhe posso ensinar a compreender e lidar com essa emoção?”
Uma das dúvidas mais comuns entre pais e cuidadores é se reconhecer as emoções da criança poderá significar validar os seus comportamentos. Mas validar uma emoção não é o mesmo que aceitar qualquer comportamento. Todos nós podemos sentir raiva, tristeza, medo, frustração. A diferença está na forma como agimos sobre essa emoção.
Por isso, uma forma adequada é reconhecer a emoção e, ao mesmo tempo, estabelecer um limite claro. Por exemplo:
“Percebo que estás muito zangado, mas não vou deixar que batas.”
“Podes estar triste, mas não podemos atirar os brinquedos.”
“Sei que queres muito aquilo, mas hoje não vai ser possível.”
Nos primeiros anos de vida, a criança ainda não consegue regular todas as suas emoções de forma autónoma. O desenvolvimento socioemocional acontece sobretudo nas relações que a criança estabelece com as pessoas significativas da sua vida. As experiências quotidianas de cuidado, brincadeira, comunicação e interação contribuem para a forma como a criança começa a compreender a si própria e aos outros.
Quando um adulto escuta a criança, responde às suas necessidades, demonstra disponibilidade, validação emocional, dá uma resposta ajustada às suas necessidades, demonstra afeto e estabelece limites consistentes, está a proporcionar oportunidades importantes para o desenvolvimento socioemocional.
Este processo é frequentemente designado por co-regulação emocional.
Para além de estar relacionada com a co-regulação emocional, a forma como os adultos acompanham as emoções das crianças também está associada à aprendizagem por modelagem.
A modelagem é um processo de aprendizagem através do qual as crianças adquirem comportamentos, atitudes e estratégias a partir da observação e imitação dos outros, sobretudo das figuras de referência, como os pais e cuidadores.
Isto significa que as crianças não aprendem apenas através daquilo que lhes dizemos, mas também, e muitas vezes sobretudo, através daquilo que observam no nosso comportamento.
Quando nos veem zangados, frustrados, cansados ou perante um conflito, estão a observar a forma como lidamos com essas emoções e situações. Da mesma forma, quando nos veem pedir desculpa, reconhecer um erro, fazer uma pausa para recuperar a calma ou procurar uma solução, também estão a aprender estratégias que poderão utilizar no futuro.
Neste sentido, os pais e cuidadores assumem vários papéis em simultâneo: são figuras de segurança, modelos de comportamento, reguladores externos e facilitadores da regulação emocional.
É importante lembrar que os pais e cuidadores também se cansam, sentem frustração, perdem a paciência e cometem erros. E isso faz parte da experiência humana. O mais importante não é procurar ser um adulto que nunca se zanga ou que está sempre emocionalmente regulado, mas reconhecer os próprios comportamentos, assumir a responsabilidade quando necessário e procurar reparar a relação.
Quando um adulto reconhece que reagiu de forma menos adequada, pede desculpa e procura restabelecer a ligação com a criança, está também a ensinar-lhe algo fundamental: todos podemos cometer erros, mas podemos reconhecê-los, responsabilizar-nos pelas nossas ações e reconstruir relações.
A aprendizagem emocional não acontece apenas nos momentos de birra ou de maior dificuldade. Acontece de uma forma muito eficaz nas pequenas experiências do quotidiano, através da brincadeira, das conversas, das rotinas e das relações.
Existem algumas estratégias simples que podemos integrar no dia a dia para ajudar a criança a desenvolver estas competências:
Criar segurança através das rotinas e da antecipação
Manter rotinas previsíveis e antecipar mudanças, como avisar que está quase na hora de sair do parque ou terminar uma atividade, ajuda a criança a sentir-se mais segura e preparada para lidar com as transições.
Ajudar a reconhecer e compreender as emoções
Podemos recorrer a histórias, desenhos, fantoches ou situações do quotidiano para conversar sobre as emoções: «Como achas que esta personagem se está a sentir?» ou «O que aconteceu para ficar triste?» ou «O que ela deve fazer para lidar com essa emoção?». Também podemos explorar as sensações físicas associadas às emoções, perguntando «Como fica o teu corpo quando estás zangado?». Estas experiências ajudam a criança a reconhecer e identificar aquilo que sente, mesmo quando ainda não consegue expressá-lo por palavras.
Ensinar estratégias em momentos de tranquilidade
Respirar em conjunto, fazer uma pausa, pedir ajuda ou procurar soluções são estratégias que podem ser praticadas através da brincadeira e em momentos em que a criança está tranquila. É importante lembrar que não podemos esperar que consiga utilizá-las autonomamente durante uma birra intensa. Inicialmente, precisa da orientação e do exemplo do adulto.
Promover a autonomia e a resolução de problemas
Oferecer escolhas simples e envolver a criança na procura de soluções permite desenvolver a autonomia, a confiança e a capacidade de lidar com dificuldades. Por exemplo, perante uma situação de frustração, podemos reconhecer aquilo que sente e ajudá-la a encontrar alternativas: «Estás frustrado porque não consegues construir a torre. Queres tentar novamente ou queres que te ajude?».
Até agora estivemos muito focados na criança, mas há uma pessoa que está presente em todas estas situações e de quem também precisamos de falar e que é essencial estar bem fisicamente e emocionalmente para ajudar a criança a desenvolver-se: o adulto.
Podemos saber perfeitamente, em teoria, que devemos validar, manter limites e falar calmamente. E, mesmo assim, há dias em que a criança faz a mesma coisa pela décima vez e simplesmente chegamos ao nosso limite.
Muitas vezes, aquilo que nos tira do sério não é apenas o comportamento da criança, mas a combinação entre esse comportamento e o nosso próprio estado emocional.
Estamos cansados, preocupados ou sobrecarregados. O corpo começa a ficar tenso, sentimos irritabilidade e acabamos por levantar a voz. Regularmo-nos primeiro permite-nos responder à criança em vez de reagirmos automaticamente à situação.
Reconhecer estes sinais pode ajudar-nos a intervir antes de reagirmos impulsivamente. Podemos fazer uma pausa, respirar, reduzir a intensidade da resposta ou procurar apoio de um profissional quando necessário.
A criança não é um adulto em miniatura. Está a construir, pouco a pouco, as competências que lhe permitirão compreender o mundo, relacionar-se com os outros e lidar com o que ela sente.
Por detrás de muitos comportamentos difíceis podem existir emoções que ainda não sabe identificar, necessidades que ainda não consegue comunicar e competências que ainda está a desenvolver.
O papel do adulto não é eliminar todas as dificuldades, evitar todas as frustrações ou impedir que a criança sinta emoções desagradáveis. É acompanhá-la nesses momentos, oferecer segurança, estabelecer limites e criar oportunidades de aprendizagem.
Porque crescer emocionalmente não acontece de um dia para o outro. Acontece nas pequenas experiências do quotidiano, nas relações que acolhem, nos limites que orientam e nas inúmeras oportunidades em que o adulto ajuda a criança a compreender aquilo que sente.
Não precisamos de criar crianças que nunca se zangam, nunca choram ou nunca sentem frustração. Precisamos de as ajudar a crescer com a segurança de que podem sentir, expressar e compreender as suas emoções, sabendo que terão apoio para aprender a lidar com elas.
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