O mito do amor absoluto, que sustenta tudo, é um dos mais antigos. E, por vezes, pode ser bastante nefasto. Culpamos os contos de fadas, as ilusões adolescentes, culpamo-nos, não raras vezes, também a nós por queremos tanto acreditar.
Encontrar culpados não vai limitar os danos. Aquilo que o fará é, eventualmente, a construção de uma noção mais madura e saudável – mas não necessariamente menos bela – do amor.
O amor não é condição única absoluta para existir uma relação saudável. As relações, por menos belo e mágico que seja, dão trabalho. São menos magia e mais investimento real.
Então, se amar não chega… o que é que realmente sustenta uma relação saudável?
O amor é suficiente para uma relação ser saudável?
O amor é, indubitavelmente, a base fundamental para uma relação saudável. Representa o vínculo, o afeto, aquilo que nos liga aproxima, aquilo que dá cor e significado à relação.
No entanto, o amor por si só, não sustenta todos os desafios e realidades inerentes a uma relação saudável. O amor não ensina a comunicar, a gerir conflitos, a garantir respeito, segurança emocional e alinhamento de expectativas.
Acreditar de forma absoluta que o amor é suficiente e que se amamos, então a relação tem de funcionar e será certamente uma relação saudável, pode estar na origem de pensamentos como: “se gostamos um do outro, então temos de ficar juntos”, ou “se nos amamos, isto devia ser fácil” ou ainda “se fosse a pessoa certa, não discutíamos”.
Estes pensamentos podem gerar frustração, dúvida e até culpa. Além disso, podem ser um entrave na construção de uma relação saudável e sólida.
O que realmente sustenta uma relação saudável?
1. Comunicação emocionalmente segura
Uma relação feita de duas pessoas envolve o encontro de dois mundos únicos, singulares e, precisamente por isso, díspares. Não somos iguais, não temos as mesmas perspectivas, necessidades, bagagens, feridas. Trazemos connosco tudo isso e mais para a relação, o que significa que vão existir divergências. E se vão existir divergências, precisamos de poder comunicar e de saber como o fazer de forma construtiva, para que a relação seja saudável.
Uma comunicação eficaz na base de uma relação saudável implica:
- expressar necessidades e emoções de forma clara;
- ouvir o outro sem atacar ou invalidar;
- conseguir ter conversas difíceis sem que isso destrua a relação.
Sem comunicação, o que acontece muitas vezes é acumulação, e aquilo que não é dito acaba por ter o potencial de gerar conflitos disfuncionais.
2. Respeito mútuo
O respeito é um dos pilares mais importantes para uma relação saudável.
Mas o que é, de facto, respeitar e ser respeitado? O respeito está presente na forma como se fala, como se discorda, como se considera o outro. É considerarmos que a outra pessoa, com todas as suas particularidades e necessidades, não é menos válida que nós. Nem menos merecedora de ser considerada, em todas as suas dimensões. Mesmo que não concordemos com ela.
Sem respeito, o amor tende a desgastar-se.
Pequenos comportamentos do dia-a-dia fazem diferença e reforçam o respeito:
- evitar ataques pessoais durante discussões;
- não desvalorizar o que o outro sente;
- reconhecer limites e diferenças.
3. Capacidade de gerir conflitos
Muitas vezes encaramos o conflito como algo negativo. Pensamos nas discussões como um mal terrível que queremos a todo o custo evitar. No entanto,a realidade é que os conflitos são inevitáveis.
O que determina uma relação saudável não é a ausência de conflito, mas a forma como ele é gerido.
Numa relação saudável e funcional:
- o foco está no problema, não na pessoa;
- há espaço para reparar depois de uma discussão;
- existe vontade de compreender, não apenas de ter razão.
Quando os conflitos se tornam ataques, silêncio prolongado ou afastamento emocional, a relação fragiliza-se.
4. Segurança emocional
A relação deve ser um espaço de segurança. Não no sentido da garantia de durabilidade, nem da promessa de relação eterna – porque isso é algo que, em boa verdade, ninguém consegue garantir. A segurança não vem da certeza que a relação vai durar para sempre. Mas sim da segurança de que podemos vivê-la sem estar constantemente a olhar por cima do ombro. Sem nos sentirmos permanentemente a pisar cascas de ovos.
Segurança emocional numa relação é podermos ser quem somos, sem medo constante da rejeição, da crítica ou do abandono. É saber que, se algo não estiver a correr bem, há respeito suficiente para que isso seja conversado. Se existir ameaças à relação, elas serão faladas, pelo que não temos de estar em estado de alerta permanente a tentar descobrir onde é que essas ameaças se estão a esconder.
A segurança emocional permite:
- vulnerabilidade;
- autenticidade;
- maior proximidade.
Sem esta base, é comum surgirem padrões como evitar conflitos, agradar constantemente ou esconder emoções. Por isso, segurança emocional é imprescindível para uma relação saudável.
5. Alinhamento de expectativas
Nem todas as diferenças são problemáticas, mas algumas podem ser difíceis de conciliar.
A questão de se devemos procurar alguém parecido connosco ou se os opostos se atraem é um debate antigo. No entanto, a verdade reside algures no meio: não temos de ser iguais ou parecidos, mas devemos coincidir em questões basilares e fundamentais.
É importante, para uma relação saudável que funcione e se sustente, que alguns pilares e questões centrais sejam partilhadas ou, pelo menos, que exista forma de se alinharem.
Questões como:
- forma de viver a relação;
- necessidade de espaço vs proximidade;
- projetos de vida;
- valores pessoais.
Quando não há alinhamento (ou disponibilidade para negociar), o amor pode não ser suficiente para sustentar a relação a longo prazo.
6. Reciprocidade
Uma relação não deve ser vivida unilateralmente. “Amar pelos dois” só fica bonito na canção.
Dar e receber de forma equilibrada – atenção, cuidado, disponibilidade emocional – é fundamental para uma relação saudável.
Quando uma das partes sente que está constantemente a dar mais do que recebe, é natural que surjam desgaste e ressentimento.
E quando há amor, mas não é suficiente?
Pode ser bastante doloroso reconhecer que existe amor… mas que, ainda assim, a relação não funciona.
Aceitar isto implica muitas vezes desconstruir a ideia de que o amor resolve tudo, e perceber que uma relação saudável precisa de mais do que sentimento.
Precisa de competências, disponibilidade, compromisso e crescimento de ambas as partes.
Se a relação não está a funcionar, não quer dizer necessariamente que tenha de terminar. Mas também não devemos colocar todas as expectativas no amor e na sua capacidade de tudo solucionar, de forma mágica.
Muitas dificuldades podem ser trabalhadas, se formos capazes de reconhecer:
- o que está a falhar;
- o que é possível mudar;
- e se existe abertura de ambas as partes para esse processo.
Procurar terapia de casal pode ser útil para compreender padrões, melhorar a comunicação e construir uma relação saudável.
Porque podemos ter o ingrediente principal, o amor, mas sem investimento e esforço ele não se transformará sozinho num resultado que vale a pena viver e saborear.