Ser mãe é muitas vezes apresentada como uma experiência natural e inevitável na vida de uma mulher. Desde cedo, as mulheres crescem rodeadas de mensagens, explícitas ou subtis, que associam o feminino à capacidade de cuidar, constituir família e, mais tarde, ser mãe. Os brinquedos para meninas são associados a cuidar de bonecas e imaginar uma família, e mais tarde quando são adultas ouvem frequentemente perguntas sobre “quando vais ter filhos?”, “já estás na idade de engravidar”. Tudo isso são experiências que contribuem para a construção de uma ideia muito particular sobre aquilo que se espera de uma mulher. Para muitas pessoas, a maternidade surge como uma possibilidade entre várias; para outras, é apresentada quase como uma etapa obrigatória do percurso de vida.
Mas o que acontece se esse desejo não existir?
Nem todas as mulheres desejam ser mães e, apesar de esta realidade ser hoje mais discutida, afirmar que não se quer ter filhos continua, em muitos contextos, a ser uma decisão difícil de comunicar. Pode surgir o receio de ser julgada, incompreendida ou considerada egoísta, imatura ou “diferente”. Por esse papel ser construído desde cedo, podem também surgir dúvidas: será que há alguma coisa errada comigo por não sentir aquilo que tantas outras mulheres parecem sentir?
Mulher’ e ‘mãe’: identidades que se ligam mas não se sobrepõem
Durante muito tempo, a maternidade foi entendida não apenas como uma possibilidade de vida, mas como uma componente central da identidade feminina. Embora as sociedades tenham mudado e existam hoje diferentes formas de construir uma família e diferentes percursos de vida, estas representações ainda continuam muito presentes no modo como falamos sobre as mulheres.
Existe uma expectativa de que a realização feminina passa, necessariamente, pela maternidade. Como se ter filhos fosse uma etapa natural do desenvolvimento de uma mulher e como se, sem essa experiência, alguma coisa ficasse inevitavelmente por cumprir. Esta ideia é tão enraizada que, muitas vezes, nem é percecionada como uma expectativa social. Surge simplesmente como aquilo que “é suposto” acontecer.
É por isso que, à medida que uma mulher se aproxima dos 30 anos, por exemplo, pode começar a ouvir com maior frequência perguntas sobre a maternidade: “Quando vais ter filhos?”, “Não pensam em ter filhos?”, “Já está na altura”. Estas perguntas podem ser feitas com inocência, mas tornam-se particularmente significativas quando partem do pressuposto de que a maternidade é inevitável e que só falta saber quando irá acontecer.
A maternidade pode ser uma experiência profundamente desejada e significativa para muitas mulheres, mas isso não significa que tenha de constituir um desejo universal. O facto de uma possibilidade ser frequente não a transforma numa obrigação.
Existe um “instinto maternal”?
Uma das ideias mais comuns em torno da maternidade é a existência de um “instinto maternal” universal, como se todas as mulheres nascessem com um desejo biológico inevitável de ter filhos e capacidade para cuidar.
Embora existam alterações biológicas, hormonais e emocionais associadas à gravidez, ao parto e ao pós-parto, não podemos reduzir o “desejo de ser mãe” a um mecanismo biológico universal presente em todas as mulheres. A forma como cada pessoa se relaciona com a maternidade é influenciada por múltiplos fatores, incluindo a sua história individual, as relações familiares, o contexto cultural e as experiências anteriores e os valores pessoais.
A maternidade como ideal do feminino
Historicamente, muitas sociedades construíram uma imagem da mulher profundamente ligada à maternidade. Ser mãe era entendido como uma das principais formas de realização feminina e, em determinados contextos, quase como a principal função social atribuída às mulheres, sem que estas pudessem fazer nada além disso.
E apesar das mudanças sociais das últimas décadas, algumas destas ideias ainda permanecem. A maternidade continua a ser frequentemente romantizada e associada a conceitos como realização, plenitude, amor incondicional e propósito. Fala-se menos das ambivalências, das dificuldades e das perdas que também podem acompanhar a parentalidade.
Não querer ter filhos: egoísmo ou ponderação?
A acusação de egoísmo é uma das formas mais comuns de julgamento dirigida às mulheres que optam por não ter filhos.
A ideia parece partir do princípio de que escolher não ser mãe significa colocar os interesses pessoais acima dos outros. No entanto, ter um filho é uma decisão que envolve uma responsabilidade enorme e permanente. Exige disponibilidade emocional, física, financeira e relacional, e implica assumir o compromisso de cuidar de outra pessoa durante muitos anos.
Nesse sentido, também podemos colocar a questão de outra forma: será mais responsável reconhecer que não desejamos a parentalidade ou ter um filho por pressão, medo ou obrigação?
Ter filhos para corresponder às expectativas dos pais, para salvar uma relação, para cumprir aquilo que a sociedade espera ou simplesmente porque “é o que se faz” pode criar uma situação particularmente difícil para todos os envolvidos.
Uma decisão consciente sobre a parentalidade implica precisamente reconhecer a responsabilidade que ela representa. Para algumas pessoas, essa consciência reforça o desejo de ter filhos. Para outras, leva-as a concluir que não querem assumir esse papel.
“E se eu me arrepender?”
O medo do arrependimento é uma das questões que mais frequentemente aparece quando se fala sobre não querer ter filhos. A possibilidade de mudar de ideias no futuro pode ser difícil de integrar, sobretudo porque a parentalidade é uma decisão que implica não ter um fator de reversibilidade.
É natural que uma pessoa se questione sobre o futuro. Nenhum de nós sabe exatamente aquilo que irá desejar daqui a dez ou vinte anos, e muitas das nossas escolhas ao longo da vida são feitas sem a possibilidade de termos garantias absolutas sobre o resultado. A existência de incerteza não significa, por si só, que uma decisão esteja errada.
Nenhuma decisão importante da vida vem acompanhada de uma garantia absoluta de satisfação futura. As pessoas mudam, as circunstâncias mudam e os projetos de vida também podem mudar. O objetivo de uma decisão consciente não é prever o futuro com absoluta certeza, mas procurar compreender aquilo que faz sentido no presente, tendo em conta os próprios valores, necessidades e circunstâncias.
Ter liberdade para escolher também pode significar mais autoconhecimento
O aumento do número de pessoas que escolhem não ter filhos pode também ser compreendido no contexto de uma maior liberdade individual. À medida que as mulheres conquistaram maior autonomia económica, profissional e social, também aumentaram as possibilidades de imaginar projetos de vida que não passam só pela maternidade.
A decisão de não ter filhos pode, em alguns casos, resultar precisamente de um processo de maior autoconhecimento. Conhecer os próprios limites, reconhecer as próprias necessidades e compreender aquilo que valorizamos pode ajudar-nos a tomar decisões mais alinhadas com a pessoa que somos.
Isto é particularmente relevante quando pensamos na parentalidade como uma experiência emocionalmente exigente. Ter filhos implica disponibilidade, responsabilidade, capacidade de adaptação e uma transformação profunda da organização da vida. Reconhecer que não queremos assumir essas exigências não significa necessariamente falta de capacidade. Pode significar, pelo contrário, uma avaliação consciente dos nossos recursos, prioridades e limites.
O autoconhecimento não conduz todas as pessoas à mesma decisão. Algumas pessoas, ao conhecerem-se melhor, percebem que desejam profundamente ser mães. Outras percebem que não desejam esse papel. O importante não é chegar a uma resposta específica, mas conseguir reconhecer uma resposta que seja verdadeiramente nossa.
A pressão social e a sensação de estar “fora do tempo”
A maternidade e o desejo de ser mãe são influenciados por processos mentais e sociais construídos ao longo da vida, nos quais assumem particular importância a cultura, a história familiar e os valores pessoais. Estes elementos contribuem para a forma como cada indivíduo atribui significado à maternidade e, simultaneamente, para a construção de representações sociais acerca do que significa alcançar uma vida adulta considerada bem-sucedida.
Quando amigas e colegas começam a ter filhos, podem surgir sentimentos difíceis de nomear. Algumas mulheres sentem alívio por perceberem que fizeram uma escolha diferente; outras sentem-se deslocadas ou questionam se estarão a perder uma experiência importante. As redes sociais podem intensificar esta comparação ao mostrarem determinadas versões da maternidade, das relações e da vida familiar.
Ao mesmo tempo, existe uma ideia muito forte de que a vida deve seguir determinadas etapas numa determinada ordem. Estudar, iniciar uma carreira, encontrar um parceiro, casar, comprar uma casa e ter filhos podem ser apresentados como elementos de uma espécie de roteiro de vida adulta.
Mas os percursos humanos não são lineares.
Existem pessoas que querem ter filhos muito cedo, outras mais tarde, outras que não querem ter filhos e outras que permanecem ambivalentes durante muitos anos. Existem também pessoas que desejam ser mães ou pais e não conseguem concretizar esse desejo. Cada uma destas experiências pode envolver emoções diferentes e nenhuma delas pode ser reduzida a uma única narrativa.
“Ter filhos para não ficar sozinha”
Outra ideia frequentemente associada à parentalidade é a de que ter filhos constitui uma espécie de garantia de companhia e suporte na velhice. Esta crença pode contribuir para a pressão sentida por algumas mulheres: se não tiverem filhos, quem estará presente no futuro?
No entanto, ter filhos não constitui uma garantia de companhia ou de proximidade emocional. As relações entre pais e filhos são complexas e podem assumir formas muito diferentes ao longo da vida.
Um filho não deve ser visto como uma garantia de disponibilidade emocional futura, nem deve carregar a responsabilidade de assegurar a felicidade ou o bem-estar dos pais.
A qualidade das relações que construímos ao longo da vida pode ser muito mais relevante para o sentimento de pertença e de ligação do que a existência de filhos por si só. Amizades, relações familiares, relações de casal, comunidade e outros vínculos significativos podem desempenhar um papel importante na forma como envelhecemos e nos sentimos acompanhados.
Colocar nos filhos a responsabilidade pela nossa felicidade futura pode também criar expectativas difíceis para ambos os lados. Os filhos têm os seus próprios projetos, relações e necessidades e não existem para preencher uma necessidade emocional dos pais.
Por isso, o medo de envelhecer sozinho merece ser pensado como uma questão própria, e não necessariamente como uma razão suficiente para ter filhos.
E quando existe ambivalência?
Nem todas as mulheres conseguem responder imediatamente “sim” ou “não” à pergunta sobre a maternidade. Algumas sentem desejo e medo em simultâneo. Outras sentem que poderiam gostar de ser mães, mas não desejam as mudanças que associam à gravidez ou ao parto. Outras ainda sentem que gostam da ideia de ter uma criança, mas não sabem se querem efetivamente assumir o papel de mãe.
A ambivalência faz parte de muitas decisões importantes. Não significa necessariamente uma patologia nem significa que exista uma resposta escondida que precisamos de descobrir rapidamente. Em alguns casos, é simplesmente necessário tempo para compreender melhor as emoções por trás disso.
Quando pode ser importante procurar acompanhamento psicológico?
A questão pode tornar-se uma fonte significativa de sofrimento quando existe culpa intensa, ansiedade, conflitos familiares persistentes, dificuldade em tomar decisões ou uma sensação constante de estar a falhar perante as expectativas dos outros. Também pode ser útil procurar acompanhamento quando existe ambivalência difícil de compreender ou quando experiências anteriores influenciam a forma como a pessoa olha para a parentalidade.
O acompanhamento psicológico pode proporcionar um espaço onde estas questões possam ser exploradas sem julgamento e sem a necessidade de chegar rapidamente a uma resposta, e ajudar a atribuir a responsabilidade às próprias decisões. Por isso, o objetivo não deverá ser convencer alguém a ter filhos ou a não os ter, mas ajudar a pessoa a compreender melhor os seus desejos, valores, medos e expectativas.
Distinguir estas diferentes dimensões pode permitir uma decisão mais consciente e, sobretudo, mais coerente com aquilo que cada pessoa realmente deseja.