Black Friday: um fenómeno que todos os anos, em novembro, nos coloca perante supostos descontos e promoções imperdíveis. São prometidas oportunidades únicas, mas este fenómeno também pode ser um gatilho para compras impulsivas, stress financeiro e mal-estar.
O fenómeno da Black Friday está associado a vários fatores psicológicos e comportamentais. O marketing aproveita estes processos e associado ao “aproveita já” estão mecanismos psicológicos em ação: a dopamina do “bom negócio”, o FOMO (“fear of missing out” ou medo de perder oportunidades) e estratégias de marketing que pressionam a decisão rápida. Construímos este guia para te ajudar a praticar um consumo consciente protegendo, consequentemente, a tua saúde mental.
Black friday = stress?
O fenómeno da Black Friday gera uma urgência para comprar, uma tensão para conseguir “agarrar” todas as oportunidades e tudo isto, por si só, é fator de stress.
Mas não fosse isto o bastante, já não é só de um dia que estamos a falar. Para além de a Black Friday se ter tornado black week, black month, parecendo prolongar-se cada vez mais, há sempre o fenómeno das compras de Natal e o apelo ao consumismo que esta época representa.
Tudo isto pode ser altamente gerador de stress e ansiedade, sobretudo para algumas pessoas. A expectativa de encontrar boas ofertas, a ânsia de saber se vai conseguir “agarrar” os itens desejados perante um sentimento de urgência e marketing de escassez, a correria para as superfícies comerciais apinhadas de gente… De facto, um estudo revelou que a ansiedade está entre as principais sensações do consumidor em relação à Black Friday — e quanto mais perto da data, mais intensa ela é.
Cérebro e compras: o que acontece?
Para compreender o fenómeno da Black Friday e o seu impacto psicológico, ajuda perceber o que acontece no nosso cérebro perante o consumo e as compras.
Estudos em neurociência e psicologia do consumidor mostram que a grande maioria das nossas decisões de compra é inconsciente, emocional e até instintiva.
De facto, as nossas decisões de compra são, frequentemente, tomadas em milissegundos, sem que tenhamos consciência disso, porque é a parte instintiva e primitiva do nosso cérebro que está em ação. É por isso que promoções-relâmpago, contadores regressivos e gatilhos de escassez são tão eficazes: eles não dão tempo para a parte mais complexa do nosso cérebro entrar em ação (o córtex pré-frontal).
Além disso, quando compramos algum item, o cérebro liberta dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação de recompensa. É uma sensação agradável, mas temporária. Depois pode surgir vazio, ansiedade ou arrependimento.
Em épocas como a Black Friday, a exposição contínua a “últimas unidades” e “só hoje” aumenta a excitação e reduz a ponderação, favorecendo decisões que não estavam nos teus planos.

Onde está o equilíbrio?
É importante ressaltar que não demonizamos a Black Friday, muito menos as compras. Se encarados com ponderação, estes eventos e promoções podem até ser proveitosos e estratégicos para fazermos compras inteligentes.
Assim, nem todas as compras são problemáticas, mesmo quando falamos de compras mais impulsivas. Todos temos impulsos e por vezes vamos ceder a esses impulsos, sem que isso signifique, necessariamente, uma perda de controlo.
Comprar algo que te entusiasma e te traz gratificação pode ser uma forma saudável de prazer e autocuidado – desde que não seja a única, e desde que não traga mais custos do que benefícios. O desafio está, assim, em perceber quando é que o consumo deixa de ser uma escolha e passa a ser, por exemplo, uma compensação emocional.
Não há uma regra específica e única que nos ajude a definir onde está a fronteira – ela irá depender de cada pessoa, das suas emoções e comportamentos.
Por exemplo, se a compra tem a função de preencher um vazio, aliviar ansiedade ou restabelecer o humor, e se essa é a nossa principal estratégia ou única, acabando por ter um impacto negativo, ela pode estar a assumir uma função de regulação emocional pouco funcional e saudável. O problema não está em comprar, mas na forma como o consumo está a ser usado para lidar com emoções que pedem outro tipo de resposta.
A diferença entre uma compra pontual, mesmo que impulsiva, e um padrão de compulsão está na frequência, intensidade e impacto.
Estes são alguns sinais de alerta que deves ter em conta:
- Comprar coisas de que não precisas, mas que “não conseguias deixar escapar”;
- Gastar mais do que planeaste, mesmo quando sabes que trará stress financeiro;
- Pensar frequentemente em compras, descontos ou oportunidades;
- Sentir culpa, arrependimento ou vazio logo após comprar;
- Esconder compras ou minimizar o valor gasto perante outras pessoas;
- Ter dificuldade em concentrar-te noutras áreas da vida devido à preocupação com consumo.
Se te revês em alguns destes comportamentos, não significa necessariamente um problema grave, mas pode indicar desequilíbrio na relação com o consumo — e vale a pena parar, observar e reajustar, bem como pedir ajuda.

10 estratégias práticas de consumo consciente
Para que possas fazer escolhas mais conscientes e aproveitar a Black Friday com maior leveza, e para que possas beneficiar dela e não ela de ti, deixamos-te algumas dicas:
1 – Fazer uma lista prévia: previamente ao dia dos descontos e em que planeias fazer as compras, faz uma lista de coisas de que realmente precisas ou que queres comprar. Assim, no dia, evitas compras por impulso e seres aliciado/a por promessas imperdíveis e que apelam à rapidez da decisão;
2 – Definir um orçamento: define o valor máximo que estás disposto/a gastar. Podes até separar este valor numa conta digital à parte para não correr riscos;
3 – Pesquisa preços previamente, para evitares ser enganado/a por descontos que não são tão vantajosos quanto parecem. Se estás em dúvida, compara o histórico de preços, para perceber se é desconto real ou ilusão;
4 – Regra das 24 horas: Se te apetecer comprar algo que não estava planeado, espera 24 horas. Se depois de um dia ainda fizer sentido, ótimo. Se o desejo desaparecer… era impulso;
5 – Define um período limitado para fazer as compras, evitando passar grande parte do teu dia dedicado/a a esta atividade. Fora desse período de compras, procura relaxar e fazer coisas que te tragam calma;
6 – Desativa notificações e/ou newsletters até passar a campanha: Durante a semana da Black Friday, considera desligar notificações das apps das lojas e silenciar newsletters com promoções. Isto porque menos estímulos tenderá a significar menos impulsos;
7 – Questiona-te sobre o propósito da compra: pergunta a ti mesmo/a “Isto resolve uma necessidade real ou emocional?”. Isto vai ajudar-te a perceber se se trata de uma necessidade real (p.ex substituir algo estragado, comprar algo útil, aproveitar para comprar um presente a um preço mais vantajoso) ou de uma necessidade emocional (aborrecimento, stress, sentimento de recompensa, etc). Isto não quer dizer que não possas comprar por uma necessidade emocional – mas sim que é importante estares consciente disso;
8 – Usa âncoras de realidade antes de comprar: por exemplo, ver o preço final com portes e taxas, calcular quanto representa no orçamento semanal/mensal, imaginar a compra daqui a 1 mês e pensar se ainda fará sentido. Estas âncoras reduzem a impulsividade e aumentam a decisão consciente;
9 – Faz pausas, nas quais te permites a respirar, para ativar o sistema de calma e potenciar uma decisão mais ponderada;
10 – Tem um plano pós-compra: guarda os recibos para qualquer eventualidade ou necessidade de troca, e aproveita após as compras para verificar se de facto te mantiveste fiel ao orçamento ou se gastaste demasiado em coisas que não precisavas, sabendo que, nesse caso, podes devolver os itens de que não precisas realmente;
E lembra-te:
- Por muito aliciantes que possam ser os descontos, nenhuma compra é uma verdadeira questão de “vida ou morte”;
- Se percebes que tens tendência a comprar por impulso e em excesso, procura perceber a origem deste padrão, pois normalmente existem razões psicológicas que orientam esta compulsão – procura a avaliação de um psicólogo!
