Limites na infância, sim? Não? Se sim, como? Se não, porquê? Vivemos numa época em que muitos pais se sentem constantemente divididos entre dois extremos, por um lado, o receio de serem demasiado rígidos, por outro, o medo de dizer “não” e magoar os filhos ou comprometer a relação.
No meio desta tensão, os limites acabam, muitas vezes, por ser evitados, adiados ou aplicados com insegurança e culpa. Surge a dúvida: “E se estou a ser demasiado duro?”, “E se isto afasta o meu filho de mim?”. Contudo, a verdade é que os limites são uma das formas mais importantes de cuidado na infância. Dizer “não” não afasta. Na verdade, dizer “não” quando é feito com presença e intenção, aproxima e ajuda a criança a sentir-se segura, orientada e acompanhada.
Porque é que os limites são tão importantes na infância?
A infância é o período em que a criança está a construir as bases do seu funcionamento emocional, social e comportamental e é através da relação com os adultos de referência que aprende o que é esperado; o que é seguro; como lidar com emoções e como se comportar em diferentes contextos. E é aqui que entram os limites pois eles funcionam como um verdadeiro mapa interno. Sem este mapa, a criança sente-se perdida, sem referências claras sobre o que pode ou não fazer.
Quando os limites são consistentes, a criança começa a organizar o mundo interno e externo, percebe que existe previsibilidade e que os adultos estão disponíveis para a guiar.
Limites na infância dão segurança (mesmo quando a criança protesta)
Uma das maiores dificuldades para os pais é lidar com a reação emocional da criança ao limite. Choro, birras, frustração… tudo isto pode fazer o adulto questionar-se (e sim, a verdade é que não é nada fácil de lidar), mas é importante compreender que a reação da criança não invalida a necessidade do limite. Na verdade, muitas vezes é precisamente o contrário, quanto mais intensa a reação, mais a criança precisa de um adulto firme e disponível. Nestes momentos, o limite transmite “Eu estou aqui. Eu cuido de ti. Eu consigo suportar”.
O limite é amor e cuidado porque a verdade é que dizer “não” também é educar para a vida pois ao longo dela nem sempre vamos fazer tudo o que queremos, ter tudo o que desejamos ou conseguir evitar frustrações. Quando os pais ao longo da infância põe limites e dizem “não” estão muito mais do que a educar naquele momento, estão a ensinar a criança a lidar com a frustração; desenvolver tolerância, saber esperar e respeitar limites. Ou seja, estão a ensinar competências fundamentais para a construção da resiliência emocional.
Alguns exemplos de frases que podem ajudar a manter o limite:
- “Eu percebo que querias muito fazer X, mas hoje não vai ser possível”;
- “Nem sempre conseguimos o que queremos, e isso faz parte”;
- “Eu ajudo-te a lidar com isso, eu estou aqui”
- “Percebo que querias continuar a jogar. Podes sentir-te zangado, eu estou aqui, mas agora é hora de desligar”;
O impacto dos limites na construção do self
A forma como os limites são vividos na infância influencia diretamente a forma como a criança se vê a si própria e o mundo. Crescer com limites equilibrados permite desenvolver:
- Autocontrolo;
- Responsabilidade;
- Autonomia;
- Confiança interna.
A criança aprende que não controla tudo, mas consegue lidar com o que sente. Por outro lado, a ausência de limites pode levar a:
- Impulsividade;
- Dificuldade em lidar com frustração;
- Necessidade constante de validação externa;
- Dificuldade em respeitar o outro.
Para aplicar os limites há algo que é fundamental. O vínculo. Limites sem relação não funciona e também não funciona relação sem limites. A verdade é que sem relação, o limite perde efeito e sem limite, a relação perde estrutura. É preciso um bom equilíbrio, é necessária a parentalidade consciente. E não, parentalidade consciente nada tem que ver com ser permissivo. Não é sobre dizer “sim” a tudo ou “não” a nada. É sobre equilíbrio pois demasiada rigidez pode gerar medo e afastamento e demasiada permissividade pode gerar insegurança. O objetivo não é controlar a criança, mas orientá-la. Devem existir sempre duas questões internas na imposição dos limites “estou a decidir com intenção ou a reagir ao momento?” e “este limite é coerente?”.
Como dizer “não” de forma saudável
Dizer “não” não tem de ser duro, nem tem de ser “porque eu é que mando” ou cheio de explicações e negociações. Impor limites pode ser feito de forma firme, mas também empática. Neste sentido, ao impor o limite podemos validar antes de limitar (“eu sei que querias muito continuar a ver televisão e percebo que fiques triste”) e manter o limite com calma (“mas agora é hora de desligar e ir dormir”).
… mas é quando a criança continua a insistir?
Mesmo depois de um limite claro, é muito comum que a criança continue a insistir, negociar ou até mesmo testar. Isto não significa que o limite foi mal colocado, significa que a criança está a fazer aquilo que é esperado no seu desenvolvimento (em linguagem simples, “ver até onde a corda estica”). É precisamente nestes momentos que o papel do adulto se torna mais importante pois a criança precisa de perceber que existe alguém que sustenta a decisão e esse papel cabe ao adulto de suportar.
No exemplo de desligar a televisão, é natural ouvir “só mais um bocadinho…”; “Este episódio ainda não acabou…”. Se o adulto cede, a criança aprende que o limite é negociável, mas se mantém, aprende segurança e previsibilidade. Portanto, o adulto deve seguir com o seu limite “eu sei que queres continuar, mas o tempo terminou”; “podes ficar zangado, eu estou aqui contigo, mas a televisão é para ser desligada”. E se necessário, o adulto deve agir, desligar a televisão e manter-se presente. Mais do que “ganhar uma luta”, o objetivo é mostrar que o adulto é a referência e o limite mantém-se.
O segredo é ser consistente, a longo prazo a criança deixa de tentar negociar e insistir porque já sabe o que é esperado. Ser consistente não é ser rígido, mas sim ser previsível. Apenas os limites incoerentes é que geram confusão.
Crescer com limites é crescer com estrutura emocional
Dizer “não” não afasta, orienta. Não magoa, protege. Não diminui o amor, apenas faz parte dele. É no equilíbrio entre amor, presença e limites que se constrói uma base emocional sólida para a vida. Educar não é evitar a frustração, mas sim acompanhar a criança nela e sem limites a criança não passa por estes processos fundamentais. Uma criança que cresce com limites equilibrados tende a tornar-se um adulto mais seguro, mais autónomo e mais resiliente porque aprendeu que o desconforto é tolerável, as emoções passam e o apoio existe.