Objetivos realistas: será que os sabes estabelecer da melhor forma?
Definir objetivos faz parte da natureza humana. São eles que nos impulsionam, que nos ajudam a organizar o tempo, a criar sentido para o quotidiano e a manter a motivação. Sempre que sentimos que um ciclo se fecha — seja o final de um ano, uma mudança de trabalho, o início de um novo projeto ou uma fase de transição — surge, naturalmente, a vontade de traçar novos rumos.
É o que tende a acontecer também nesta fase do final do ano: embalados no ciclo simbólico representado por 365 novos dias, traçamos as tão famosas resoluções de ano novo. Será saudável? Ou um precipício para o fracasso de terminar o ano dando conta de tudo o que não conseguimos concretizar?
De facto, nem todos os objetivos favorecem o nosso bem-estar. Quando são excessivamente exigentes, vagos ou desconectados de quem somos, podem gerar frustração, culpa e sensação de fracasso. Por isso, mais do que definir metas, importa aprender a definir objetivos realistas, conscientes e sustentáveis ao longo da vida.
Definir objetivos realistas: porque é importante?
Os objetivos funcionam como uma bússola. Ajudam-nos a orientar escolhas, a dar significado ao esforço e a manter uma sensação de progresso. Sem metas, corremos o risco de viver em modo automático, reagindo às circunstâncias em vez de agir de forma intencional.
No entanto, é importante lembrar que os ciclos da vida não coincidem, necessariamente, com os ciclos do calendário. Podemos (e devemos) redefinir objetivos sempre que a vida muda, por exemplo, após uma perda, um novo desafio, uma mudança de prioridades ou simplesmente um novo nível de consciência sobre nós próprios.
Objetivos realistas vs valores: uma diferença fundamental
Quando pensamos em objetivos, pensamos em metas que estabelecemos e queremos atingir. E, embora, como vimos, os objetivos sejam importantes porque dão estrutura aos nossos dias e movem-nos na direção certa, a verdade é que não devemos definir objetivos só porque sim, e é fundamental que eles estejam conectados a algo maior: os valores.
Arriscaria até dizer que os valores são mais importantes do que os objetivos, porque são mais constantes e menos voláteis, além de mais nucleares.
Os valores não são ações que se possa concluir ou riscar de uma lista. São mais parecidos com direções a seguir, e não com destinos a atingir. Os valores refletem a maneira como escolhemos estar no mundo e como escolhemos direcionar e despender o nosso tempo e energia. São as qualidades que colocamos nas nossas ações e aquilo ao serviço de que estamos a agir.
Por exemplo, se valorizas ser uma pessoa fisicamente ativa, pode fazer sentido estabelecer o objetivo de treinar todos os dias. No entanto, esse objetivo pode alterar-se, seja por vontade ou força das circunstâncias. Podes, por exemplo, sofrer uma lesão que te impede de treinar todos os dias. Mas existem formas de continuares a viver uma vida alinhada com a importância da atividade física, encontrando outras formas de moveres o corpo e te manteres ativo/a.
Os valores não estão apenas no que fazes, mas também na forma como o fazes e no porquê de o fazeres.

Como definir objetivos realistas?
1: Sê específico e prático
Objetivos que não dependem exclusivamente de nós tendem a gerar frustração. Metas como “ficar rico” ou “encontrar a pessoa certa” estão cheias de variáveis externas e são altamente subjetivas. Em vez disso, é mais saudável formular objetivos que envolvam ações sob o nosso controlo, como:
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- Poupar X euros por mês;
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- Conhecer novas pessoas;
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- Cuidar melhor da minha saúde emocional.
2: Estabelece pequenos passos
Objetivos são mapas gerais; o que os torna possíveis são os micro-passos.
Por exemplo, o objetivo “praticar mais exercício” pode transformar-se em:
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- inscrever-me um ginásio;
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- caminhar 30 minutos por dia;
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- treinar duas vezes por semana.
Metas grandes tornam-se alcançáveis quando são fragmentadas em comportamentos concretos.
3: Deves conseguir avaliar o progresso
Um objetivo precisa de poder ser acompanhado. Quanto mais específico, maior a probabilidade de ser concretizado.
“Ser feliz” é inspirador, mas difícil de medir.
“Dormir melhor durante a semana” pode tornar-se“Deitar-me antes da meia-noite, 4 dias por semana”.
4: Alinha objetivos realistas com valores e propósito
Definir objetivos apenas porque “toda a gente o faz” aumenta a probabilidade de desistência. Pergunta-te:
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- O que faz sentido para mim nesta fase?
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- O que estou realmente a tentar mudar?
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- Este objetivo serve quem eu sou… ou quem sinto que deveria ser?
O autoconhecimento é a base de metas sustentáveis.
Como caminhar na direção certa?
Mais do que listas de metas, é essencial cultivar atitudes internas que sustentem o processo:
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- Ser gentil contigo próprio/a;
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- Refletir e aprender com as experiências menos boas do dia-a-dia;
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- Reavaliar objetivos quando deixam de fazer sentido e alterá-los quando se revelam inconcretizáveis, sem permitir que isso traga consigo a noção de fracasso;
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- Celebrar pequenas conquistas;
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- Aceitar que nem tudo pode ser planeado e permitires-te a viver com alguma espontaneidade, encontrando beleza e riqueza no imprevisível.

Exemplos de objetivos realistas e saudáveis
Apresentamos-te alguns exemplos de objetivos saudáveis, com a ressalva de que servem apenas de exemplo, sendo o mais importante definires os objetivos que de facto fazem sentido para ti e se alinham com os teus valores:
Saúde física
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- Criar uma rotina de sono regular durante a semana;
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- Caminhar 20–30 minutos, 3 vezes por semana;
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- Fazer 100km por mês (caminhar ou correr);
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- Beber 1,5L de água por dia;
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- Marcar os exames de rotina em falta;
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- Reduzir o consumo de estimulantes (café, bebidas energéticas) a 2 bebidas por dia;
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- Encontrar uma atividade que me permita fazer exercício físico de forma prazerosa.
Saúde mental e emocional
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- Iniciar acompanhamento psicológico;
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- Aprender a reconhecer sinais de cansaço emocional;
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- Avaliar o meu nível de stress 1 vez por semana numa escala de 0–10;
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- Fazer 10min de journaling todos os dias;
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- Reservar tempo semanal para pausa e autocuidado;
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- Fazer exercícios de relaxamento / meditar 3x por semana;
- Definir 1 noite por semana sem trabalho nem ecrãs após as 21h.
Relacionamentos
- Conseguir dizer ‘não’ pelo menos 1 vez no mês sem me explicar ou justificar excessivamente;
- Ter um date por semana com o/a companheiro/a, sem telemóveis e distrações;
- 30min a brincar com os filhos sem o telemóvel por perto, todos os dias;
- Estar com os amigos 1 vez por mês;
- Responder a conflitos em menos de 24h, em vez de evitar.
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Trabalho
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- Definir 3 prioridades por dia de trabalho;
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- Sair do trabalho até ao horário previsto em pelo menos 3 dias por semana;
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- Aprender uma nova competência específica nos próximos 6 meses;
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- Pedir 1 feedback estruturado por mês ao superior;
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- Reduzir o multitasking (apenas 1 tarefa principal por bloco de tempo);
- Agendar pausas reais no calendário profissional.
Desenvolvimento pessoal e lazer
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- Ler 1 livro por mês sobre um tema importante para mim;
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- Fazer 2 cursos ou workshop no ano;
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- Ver mais documentários;
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- Fazer uma viagem a um sítio novo, durante o ano;
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- Retomar um hobby específico até ao fim do trimestre;
- Reduzir o tempo de ecrã para uma média de 2h/dia.
Finanças
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- Criar um fundo de emergência de X€ em 6 meses;
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- Registar todos os gastos durante 30 dias;
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- Definir um teto mensal de X€ para gastos pessoais;
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- Guardar 10% do rendimento mensal automaticamente.
E deixamos ainda uma outra sugestão:
Porque não revisitar as antigas resoluções de ano novo e, com gentileza, compreender o porquê de algumas delas não terem sido concretizadas, decidindo de que forma as podes redefinir, reenquadrar ou eliminar dos objetivos que pretendes alcançar no momento, sem noções de culpa?
Em síntese…
Definir objetivos pode ser uma ferramenta poderosa de crescimento pessoal, desde que seja feita com consciência, realismo e compaixão. Não há atalhos para a realização pessoal. O bem-estar constrói-se no caminho, não apenas na chegada.


